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Curva de vento

A textura e o ímpeto do grupo pernambucano Rivotrill

por André Raboni
[22/04/2008]

Tome um comprimido e relaxe. Tome dois e fique sonolento. Encoste-se em um sofazinho confortável... numa almofada bem macia.  Tome um cafezinho pra manter o sossego e não dormir. Aproveite o clima ameno do território entre as suas paredes. Coloque no som o “Inverno” de Vivaldi e afunde um pouco mais no sofá. Depois deixe apenas uma luz acesa, ao longe.

Não, não, não! Pára, pára tudo!

Nada de comprimidos para “sonorificar” o ambiente do corpo. Esqueça o seu Clonazepam de hoje. Zero ansiolíticos. Levante. Ande. Abra e feche as mãos repetidas vezes. Estale seu pescoço. Os dedos. Agite-se antes de se beber. Dê pulinhos. Respire fundo. Aperte o play. Vai começar agora uma experiência cheia de labirintos, cogumelos, flautas, grilos, árvores, paredes, chuva, pássaros, duendes, tambores, flores-borboleta, épocas, ventanias, contrabaixos, cores, paisagens, objetos, personagens, paisagens... atmosferas, imagens,sons, sensório e textura.

Foi com a força desses elementos que meus órgãos foram espancados pelo som de uma banda que vem de Pernambuco não apenas para “se inserir” na cena musical brasileira, mas para abrir as portas da percepção de nossos palcos, platéias, MP3’s e salas de estar. Deixando de lado aquele velho comprimido que dá sono, vamos falar de ímpeto. Vamos falar da banda Rivotrill.

Composta de três virtuosos músicos com formações distintas, a banda lançou seu disco de estréia, Curva de Vento, de forma independente, no dia 25 de janeiro, no Teatro de Santa Isabel, em Recife. O Rivotrill é Júnior Crato [flauta, saxofone e teclados], Rafa Duarte [contrabaixo elétrico] e Lucas dos Prazeres [percussão]. Como banda instrumental, as fronteiras se diluem, pois eles sabem o que querem e onde querem chegar.

Em pouco mais de dois anos e meio de existência, eles não sobem ao palco com ares de quem ainda procura no escuro uma identidade sonora. Eles não procuram uma caixinha de mercado para se enquadrar. Eles criam. Criam com intensidade e com verdade. Transmitem tal euforia ao tocarem, que não há como duvidar do fato de eles realmente gostarem do que estão fazendo. Vê-los e ouvi-los ao vivo é uma experiência sensorial.

Em seu disco de estréia não é muito diferente. Curva de Vento traz 10 músicas que transitam literalmente em vários ambientes de uma casa. Você deve estar se perguntando: “Ô meu amigo, que papo é esse de literalmente?” Mas, é isso mesmo. Eu explico. O disco foi gravado com um conceito bastante particular. Cada um dos instrumentos foi captado em ambientes diversos dentro de uma casa alugada pela banda, durante uma semana de março de 2007, na Ilha de Itamaracá, no litoral norte de Pernambuco.

Já na primeira música, intitulada A Casa [com participação do grande percussionista Naná Vasconcelos], é criada uma textura transitória de mistério e descoberta de espaços diversos e timbres orgânicos. A captação dos instrumentos foi feita com os músicos passeando pelos cômodos da casa. Essa organicidade está presente em todo o disco.

Chuva Verde [segunda faixa do disco] começa com o som de uma forte tempestade. De súbito ela é engolida pela flauta de Júnior Crato – captada dentro de um banheiro. A bela melodia da flauta ganha força com o surgimento da percussão explosiva de Lucas dos Prazeres, captada na área de serviço da casa. Quando o contrabaixo de Rafa Duarte surge, também na área de serviço, a música cresce vertiginosamente e ensurdece os ribombos dos trovões – a chuva vai para um segundo plano.  

Mas, a música segue, e caminha por múltiplas paisagens, ora perambulando pelo melancólico molhado das enchentes, ora cavalgando na cadência acelerada da rítmica, nordestina impressa pela percussão vivaz de Lucas e pelas melodias em contraponto da flauta e do contrabaixo que se entrecruzam, se chocam, se aproximam, se distanciam, caminhando de mãos dadas em um conflito harmonioso, cheio de ímpeto e vida.

As faixas do disco vão fluindo e dando mostras de texturas diversas: traduzem o melhor da leveza de compassos que remetem a Charles Mingus; sorriem transitando no rock progressivo bem desenhado do Jethro Tull; e por fim, criam sensações rítmicas e melódicas universalmente nordestinas, afro-descendentes e latinas, numa profusão de bons arranjos em composições que experimentam timbres e efeitos orgânicos, texturizados pelo conceito da captação ambiente.

Todo espaço é lugar na casa. Cada vazio é composto de forma a fundir instrumento e ambiente. Até mesmo uma caixa d'agua foi utilizada como caixa acústica para o djembê tocado por Lucas, em Cangote. A dispensa, a varanda, os quartos, a sala, o banheiro, a escada, cada pedacinho da casa emprestou sua singularidade para as experiências sonoras do disco.

O som dos grilos, os uivos, o vento, assovios, todos esses elementos criam um clima noturno e misterioso na última faixa do disco A Floresta e o Duende, intensificado pelo uso de uma sala DUB para captação profunda dos instrumentos. Ainda bêbada de mistério, a canção fecha o disco com a mesma força e experimento de textura que percorrem todo o álbum.    

Com o apoio da Chesf, e de muitos amigos, contando com as participações especiais de Naná Vasconcelos, Yuri Queiroga [que assina a produção do disco, junto dos integrantes da banda], Spok, Eluizio Junior, Fabinho Costa e Renata Rosa, o Rivotrill realmente está entrando de forma sólida num relevante cenário musical brasileiro.

Curva de Vento
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Rivotrill
Independente


                                       fotos: www.myspace.com/bandarivotrill e www.rivotrill.com.br

 



Dimas  -  Olinda  -  23/04/2008 ~ 18:40
Sem duvidas a tessitura da palavras de André Raboni dão uma nova textura ao Cd do rivotrill. Essa noite abdicarei do meu anticiolitico e escutarei as musicas q encontrar na net e que sem duvidas me furtarão o sono.

Luciana  -  Recife  -  24/04/2008 ~ 18:39
Fui conferir a banda, de fato, porque me pareceu "sugestivo" o nome que ela carrega... De fato, partilho da leitura de André sobre o trabalho que o Rivotrill vem produzindo: é som dos melhores! As palavras de Raboni cabem bem pra falar do que representa o trio pernambucano.

 
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