
_take 1 – bilhar
Raimundo se prepara para mais uma jogada. Erra. A bola verde titubeia e não acerta a caçapa. São 21h30 do dia 15 de abril e a continuista Paula Mercedes confere as posições das bolas na mesa para não desmanchar a cena. Uma rápida pausa... O diretor Francisco César Filho, o Chiquinho, avisa que esse é o momento The Color of Money do set de filmagem.
"A tacada precisa ser mais forte, com mais barulho", explica Chiquinho, após se debruçar sobre a mesa para mostrar, detalhadamente, a trajetória que a bola branca precisa fazer.
Ao contrário do filme de Martin Scorsese, não estamos nos suntuosos salões de bilhar de Atlantic City. No campo de visão, não há ninguém à vista com a pinta dos galãs Tom Cruise e Paul Newman nem jogadores profissionais em um torneio valendo muito dinheiro.
O diretor de fotografia Aloysio Raulino posiciona novamente a câmera no tripé. Som, luz... E na hora da ação, dessa vez a bola entra com precisão certeira.
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| Francisco Cesar Filho, o diretor Chiquinho |
Além de dublê de jogador, Raimundo é proprietário do Bar-Sinuca Retiro do Pescador. Seu estabelecimento divide as atenções com os inferninhos, saunas mistas, cabeleireiros, botecos, casas de espetáculos e boutiques da rua Augusta, mais precisamente do "baixo-Augusta", em direção ao 'centrão' da cidade de São Paulo. Suas tacadas serão combinadas com as mãos dos personagens Alex e Tonico, os dois amigos jornalistas do filme Augustas, cujas filmagens se encerraram no último dia 20 de abril.
Baseado no romance cult A Estratégia de Lilith, do jornalista de rock Alex Antunes & Sish, o filme narra momentos da vida do próprio autor. Após ser demitido e terminar o relacionamento com a chefe e amante, Alex se embrenha no inusitado universo urbano: o da prostituição e o dos rituais neo-xamânicos de transe.
Em busca das respostas para suas angústias, ele desperta a voz feminina de Sish, uma espécie de entidade-alucinação que passa a aconselhá-lo.
_take 2 – silêncio no set!
Os buzinaços dos carros e gritarias na rua enlouquecem o técnico de som Louis Robin. O movimento de transeuntes, pedintes e prostitutas é intenso na rua, que respira - dia e noite - a cultura alternativa da cidade, freqüentada por jovens de todas as tribos. Nenhum som estranho pode vazar para dentro do bilhar. É preciso sincronismo, esperar o momento exato de o semáforo fechar, o ônibus passar para só então começar a rodar novamente.
"Vamos fazer silêncio!", ordena Chiquinho, depois de conferir a lente ideal com o diretor de fotografia.
Um rápido ensaio antes de rodar a cena 33. Raulino fará com a câmera na mão o diálogo de aproximadamente dois minutos envolvendo Alex, Tonico e a prostituta Katia. Ela vai de xiboquinha enquanto os dois amigos bebem ATOL, a cerveja cinematográfica especialmente confeccionada para compor as cenas de bar.
Chiquinho pede que todos saiam de quadro e permaneçam atrás do pano preto que envolve a câmera, liberando o salão da sinuca apenas para os três atores e o câmera. Penso estar atrapalhando, me movo para lá e para cá com o objetivo de visualizar melhor aquele momento.
São três, quatro tomadas para chegar à exatidão. Terminada mais essa seqüência, o diretor confere as imagens no monitor ligado à câmera. Satisfeito, vibra com a atuação de Tonico na cena em que ele é maliciosamente assediado por Katia, enquanto ao seu lado Alex fecha a cara num momentâneo desconforto pelo ciúme que sente da prostituta.
"A rua Augusta é um personagem muito especial. Território livre de convivência", afirma Chiquinho, que busca para o filme um cunho mais documental e realista. Por isso, a escolha do diretor de fotografia Aloysio Raulino, veterano fotógrafo que possui esse olhar voltado para a cidade e para as pessoas, já demonstrado em filmes como Noites Paraguayas, O Prisioneiro da Grade de Ferro e mais recentemente em Serras da Desordem e O Aborto dos Outros.
 O diretor de fotografia Aloysio Raulino confere se a imagem vai sair como ele planejara |
"Quero focar a mistura de personagens que vivem na Augusta e a atmosfera maluca dessa rua. Os ícones como Espaço Unibanco, Outs, Vegas não me interessam, bem como o contraste entre o lado glamouroso dos Jardins e o underground do centro", afirma o diretor, durante a pausa para o jantar de uma parte da equipe, enquanto alguns profissionais preparam um novo set para as filmagens previstas até às quatro da matina.
Quando Chiquinho soltou essas palavras - embora já tivesse falado a respeito dezenas de vezes nos últimos dias -, tornou-se repentinamente óbvio, no calor da filmagem, que um dever estava se concretizando em seu íntimo.
Ao manifestar satisfação em rodar seu primeiro longa-metragem de ficção, o diretor compreende, melhor do que ninguém, as dificuldades para alcançar essa nova etapa em sua carreira, diante das dificuldades burocráticas e financeiras no levantamento de dinheiro para empreitadas culturais.
Até chegar a essa produção, Chiquinho percorreu um longo caminho pelas entranhas do audiovisual brasileiro. Cineasta, curador e diretor de programas de televisão, querido pela cinefilia paulista, ele fez parte da geração conhecida como “Primavera do Curta-Metragem Brasileiro” nos anos 1990. Entre seus trabalhos, dirigiu o curta premiado internacionalmente Rota ABC sobre a juventude da periferia industrial de São Paulo, além de Poema: Cidade, Queremos as Ondas do Ar!, Hip-Hop SP e o documentário VinteDez em parceria com Tata Amaral.
A produção de Augustas começou a ser elaborada após vencer o concurso do Ministério da Cultura para longas de ficção de baixo orçamento. Conhecido no meio audiovisual como “BO” – até R$ 1 milhão -, a produção se encaixa no rol dos filmes nacionais que precisa se adaptar a certas concessões para conseguir cumprir o prazo estabelecido sem ultrapassar os gastos.
Ao escutar Chiquinho narrar um pouco das quatro semanas de filmagem, a famosa frase do cineasta Roberto Santos - “Saber transformar a falta de condições em elementos de criação” - parece ecoar com mais força na minha imaginação. Mesmo que ela não seja dita com todas as letras, fica claro que o parto de Augustas está sendo realizado com base nesse pensamento.
Além dos atrasos que normalmente atrapalham o andamento das filmagens, reclamações e constrangimentos dos vizinhos e donos de danceterias da Augusta, bem como problemas com o trânsito e interferência do som direto foram alguns dos percalços que surgiram no meio do caminho.
São pequenos aborrecimentos comparados às preparações das cenas em que a equipe teve de arrumar dois carros batidos, já que o orçamento não permitia gastos excessivos para simular um acidente. Mais preocupante foi ter de refazer algumas seqüências no apartamento do Alex, que, por algum motivo, não ficaram registradas na película. Nelas, o protagonista monta um círculo regado a nozes e luz de velas para transar com a prostituta Katia.
fotos: Tuca Vieira