
Teve Nara Leão, é claro, mas também Michael Jackson, Eurythmics e até Duran Duran. Em apresentação única no Canecão, na última sexta-feira, Fernanda Takai mostrou porque seu novo trabalho, o CD Onde brilhem os olhos seus, está dando o que falar desde que foi lançado, no fim do ano passado. No palco, ousou ao inovar na escolha das canções, e, como sempre, abusou da meiguice. Baseado no repertório de Nara Leão, o primeiro trabalho solo da mineira é uma releitura própria de músicas que marcaram a carreira da rainha da bossa nova.
Com timbres, solos e arranjos que flertam com o pop, o folk, o jazz e, por que não, o baião, no disco, Takai renova e reinventa grandes canções de mestres como Chico Buarque, Zé Kéti, Ary Barroso, Roberto e Erasmo Carlos – entre tantos outros mestres. No palco, o que se viu foi um set list repleto de inusitadas “faixas-bônus” (como a própria definiu). Logo no início, Fernanda atacou de Eurythmics, com uma versão bem romântica de There Must Be An Angel. O pop de Duran Duran aparece – em uma versão muito melhorada, convenhamos – de Ordinary World; e o soul do ainda pequeno Michael Jackson esteve presente em Ben.
O que as faixas extras têm a ver com Nara? Nada. O repertório é assumidamente uma escolha pessoal de Fernanda. E ela flerta sem remorsos com o pop e até com o brega [no bis com O divã de Roberto Carlos e Esconda o pranto num sorriso, do trágico Evaldo Braga].
Mas Chico, Caetano Veloso, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Nelson Cavaquinho, se estivessem vivos ou presentes, não teriam do que reclamar. Já que suas canções escolhidas para compor o CD, e os 36 minutos que lhe couberam no show, foram apresentadas com a mesma afinação do aprovadíssimo disco, que, não por acaso, tem direção artística de Nelson Motta. E se no começo, Takai se mostrava nervosa com a responsabilidade de estar no Canecão, ao longo do show, o nervosismo inicial da mineira deu lugar a arranjos certeiros e até passinhos ousados.
O show tem direção musical do marido e companheiro do Pato Fu, John Ulhoa, que também produziu o álbum. No palco, Fernanda esteve acompanhada de John [guitarra, violão e vocais], Lulu Camargo (teclados, um pouco acima do tom), Mariá Portugal [bateria, percussão e vocais] e Thiago Braga [baixo e violão]. Debaixo dos caracóis do seus cabelos, a última da noite, Diz que fui por aí, e Com açúcar, com afeto, foram os sucessos mais aplaudidos, como era de se esperar. Mas boas surpresas, como uma versão em japonês de O Barquinho, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, mostram que Fernanda ainda vai dar muito o que falar.

foto: fabiana figueredo | gabriela lima
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