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Ela é uma pessoa fria
Nada pessoal. Nenhuma foto por Gabriel Louback
Se você já trabalhou em escritório, seja em salas individuais, seja em baias, talvez tenha Recentemente passaram pelo meu cubículo, analisaram-no em toda a sua extensão [correspondente a um corner de 1m²] e comentaram: “Nada pessoal. Nenhuma foto. Interessante”. Interessante. Eu nunca tinha reparado que o local onde sento não tem nada que diga a meu respeito. Apenas um adesivo minúsculo, do Corinthians, lá no final de uma das paredes da baia. No restante da armação, apenas papéis de contatos, para rápida visualização na hora da correria. Só. Fiquei pensando nos outros lugares que trabalhei. Se alguma coisa havia, era algo que o meu antecessor tinha deixado. Geralmente um porta-lápis, adesivos de florzinhas, post-its com data vencida, entre outras coisas. Comecei a achar que eu sou um cara insensível. Uma pessoa que não demonstra afeto pelos seus entes mais queridos ou que tem vergonha de expô-los em fotos ao lado do monitor. Nessa semana, uma amiga comentou a mesma coisa. Mas no caso dela, o diagnóstico já estava pronto há tempos: ela é uma pessoa fria. Ela se auto-diagnosticou. Não recomendo em casos mais sérios! Mas aos poucos, fui percebendo que comigo a questão era outra. No começo de cada trabalho, costumo não colocar coisas minhas logo de cara pois nunca sei quanto tempo vou ficar. Sempre há aquele período inicial de adaptação, até mesmo previsto em contrato [três meses]. Mas passado esse tempo, a mesa continua intacta, no quesito “coisas pessoais”. Porque as quinquilharias, úteis [e as nem tanto], papéis e bagunça reinam apenas duas horas depois. Porém, mesmo após os primeiros meses, não me empolgo em colocar objetos que me façam sentir em casa, ou mais confortável. O meu problema, se é que algum há, é justamente esse: eu não quero me sentir em casa enquanto estou no trabalho. Até mesmo nos lugares que mais gostei de trabalhar, não é algo que eu goste de pensar: estou em casa. É um ambiente que não condiz com meu conceito de lar. A não ser que eu tenha um trabalho home-office, o que muda totalmente a figura e o conceito. Mas não quero me acomodar a ponto de pensar em não querer mais sair dali. É esse o sentimento de casa, quando estamos satisfeitos com ela. Há pessoas que moram a vida inteira no mesmo imóvel, não por comodismo, mas simplesmente porque realmente gostam daquele local. Se não há necessidade em sair, para que então se mudar? Já no trabalho, por melhor que ele seja, não podemos nos acomodar ou ficarmos seguros nesse nível. Nosso lar é um refúgio. Quando as pessoas transformam suas baias em seus lares, com todos os apetrechos comuns aos dois, a minha interpretação é que transformaram aquele local em sua zona de conforto, descanso e todas as outras atribuições de nossas casas. Pode ser que não seja assim para todos. Pode ser que algumas dessas pessoas, até mesmo você, saibam lidar com o fato de chegarem ao escritório e parecer que voltaram para casa. Mas essa é uma das [muitas] coisas que ainda não aprendi a lidar. Talvez nunca aprenda. A questão é saber respeitar a decoração dos meus colegas. No entanto, isso não me impede de dar um pulo na baia vizinha e fazer umas compras. Alguém precisa de pilhas? *Gabriel Louback é jornalista, sonha com um trabalho home-office e chora toda vez que assiste Coração Valente
Mari Gualano - São Paulo - 15/05/2008 ~ 21:08
Juliana Ricci - 21/05/2008 ~ 23:14
Djanira Horn - Joinville,SC - 13/06/2008 ~ 09:02
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