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Ela é uma pessoa fria

Nada pessoal. Nenhuma foto

por Gabriel Louback
de São Paulo

[15/05/2008]

Se você já trabalhou em escritório, seja em salas individuais, seja em baias, talvez tenha reparado na decoração que cada pessoa coloca em seu canto. Outro dia, entrei na sala de um dos diretores de uma empresa e parecia que estava na sala de estar da casa dele: mesa de centro com bule de café, jarra d’água caseira, poltronas, fotos da família, flores, toalha, jornal do dia etc. Lógico que como ele recebe figuras importantes em seu escritório, o ambiente deve ser agradável. No entanto, nunca consegui entender baias que figuram lembranças de viagens como mini-berimbaus, foto dos gatos e cachorros, ou até mesmo um pingüim, para dar um ar mais kitsch ao cubículo. Outro dia, vi uma mesa que o dono parecia ter passado em todas as barraquinhas do Largo da Batata e ainda ter dado um pulo na 25 de Março para enfeitá-la. Era um misto de bugigangas: chaveiros, estojos, canecas, espelhinho, bandeira do São Paulo, adesivo do Homem-Aranha, foto do namorado e dos pais, dos colegas de trabalho, três calendários, desenho da sobrinha, pilhas, radinho, iPod, mini árvore de natal e uma coleção de latas de cervejas inusitadas.

Recentemente passaram pelo meu cubículo, analisaram-no em toda a sua extensão [correspondente a um corner de 1m²] e comentaram: “Nada pessoal. Nenhuma foto. Interessante”. Interessante. Eu nunca tinha reparado que o local onde sento não tem nada que diga a meu respeito. Apenas um adesivo minúsculo, do Corinthians, lá no final de uma das paredes da baia. No restante da armação, apenas papéis de contatos, para rápida visualização na hora da correria. Só. Fiquei pensando nos outros lugares que trabalhei. Se alguma coisa havia, era algo que o meu antecessor tinha deixado. Geralmente um porta-lápis, adesivos de florzinhas, post-its com data vencida, entre outras coisas.

Comecei a achar que eu sou um cara insensível. Uma pessoa que não demonstra afeto pelos seus entes mais queridos ou que tem vergonha de expô-los em fotos ao lado do monitor. Nessa semana, uma amiga comentou a mesma coisa. Mas no caso dela, o diagnóstico já estava pronto há tempos: ela é uma pessoa fria. Ela se auto-diagnosticou. Não recomendo em casos mais sérios! Mas aos poucos, fui percebendo que comigo a questão era outra. No começo de cada trabalho, costumo não colocar coisas minhas logo de cara pois nunca sei quanto tempo vou ficar. Sempre há aquele período inicial de adaptação, até mesmo previsto em contrato [três meses]. Mas passado esse tempo, a mesa continua intacta, no quesito “coisas pessoais”. Porque as quinquilharias, úteis [e as nem tanto], papéis e bagunça reinam apenas duas horas depois. Porém, mesmo após os primeiros meses, não me empolgo em colocar objetos que me façam sentir em casa, ou mais confortável.

O meu problema, se é que algum há, é justamente esse: eu não quero me sentir em casa enquanto estou no trabalho. Até mesmo nos lugares que mais gostei de trabalhar, não é algo que eu goste de pensar: estou em casa. É um ambiente que não condiz com meu conceito de lar. A não ser que eu tenha um trabalho home-office, o que muda totalmente a figura e o conceito. Mas não quero me acomodar a ponto de pensar em não querer mais sair dali. É esse o sentimento de casa, quando estamos satisfeitos com ela. Há pessoas que moram a vida inteira no mesmo imóvel, não por comodismo, mas simplesmente porque realmente gostam daquele local. Se não há necessidade em sair, para que então se mudar? Já no trabalho, por melhor que ele seja, não podemos nos acomodar ou ficarmos seguros nesse nível. Nosso lar é um refúgio. Quando as pessoas transformam suas baias em seus lares, com todos os apetrechos comuns aos dois, a minha interpretação é que transformaram aquele local em sua zona de conforto, descanso e todas as outras atribuições de nossas casas.

Pode ser que não seja assim para todos. Pode ser que algumas dessas pessoas, até mesmo você, saibam lidar com o fato de chegarem ao escritório e parecer que voltaram para casa. Mas essa é uma das [muitas] coisas que ainda não aprendi a lidar. Talvez nunca aprenda. A questão é saber respeitar a decoração dos meus colegas. No entanto, isso não me impede de dar um pulo na baia vizinha e fazer umas compras. Alguém precisa de pilhas?

  *Gabriel Louback é jornalista, sonha com um trabalho home-office e chora toda vez que assiste Coração Valente



Mari Gualano  -  São Paulo  -  15/05/2008 ~ 21:08
É um imenso prazer para mim fazer um comentário em tão ilustre coluna.Concordo em gênero, número e grau com a visão do autor e creio que até me identifique com ele nesse sentido. Entretanto, creio que uma das explicações plausíveis a esse fenômeno seja o fato de que nem todos tem em casa o coforto de um lar, se é que me entendem. Portanto Sr. Gabriel, sinta-se privilegiado!

Juliana Ricci  -  21/05/2008 ~ 23:14
Gabriel, também não enfeito minha mesa. Temos problemas? rs...Atualmente deixei alguns desenhos que o Gerente de Operações faz a cada reunião. Ele manda bem, então eu gosto de olhar para os desenhos e me inspirar. Ou será que é pra lembrar sempre que ele existe e, logo, tem algo a me entregar? Bjo, parabéns!

Djanira Horn  -  Joinville,SC  -  13/06/2008 ~ 09:02
Eu também não enfeito minha mesa de trabalho, concordo com o autor, meu trabalho não deve ficar parecido com a minha casa, tenho que lembrar que estou trabalhando e não relaxando... e tenho mais um empecilho, divido meu local de trabalho com outras pessoas, se cada um trouxesse a sua decoração, teríamos um caos na sala.

 
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