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Guerra no mercado imobiliário

Ah, o som inconfundível de desligarem o telefone na sua cara

por Gabriel Louback
de São Paulo

[29/05/2008]

Sempre fui preconceituoso com relação a quem tem preconceitos. Pode até ser um contra-senso, mas sempre me incomodou muito esse tipo de pessoa. A definição do termo "preconceito", segundo o dicionário Michaelis, é: "Conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados". Ou seja: é falar, achando que sabe, quando na verdade, não se sabe nada.

Há figuras míticas, alvos de preconceitos e todo tipo de piada possível. Estão inseridos no imaginário coletivo. Advogados e sogras são preferência nacional. No entanto, descobri recentemente uma outra figura: o corretor de imóveis. Um amigo, que também está para casar, ao procurar apartamentos pela cidade de São Paulo, constantemente desligava o telefone xingando: "Odeio corretores de imóveis! Bando de [coisas impublicáveis]!". Eu sempre me assustava, mas sempre considerei exagero dele, por conhecê-lo e saber de sua tendência a sempre reclamar das coisas, apenas para manter o hábito.

Acontece que eu comecei a procurar imóveis. Talvez por não possuir uma estratégia bem definida, tenha ficado vendido. Deveria ter seguido os conselhos de meu pai e ter lido A Arte da Guerra, de Sun Tzu. Atualmente, é um livro utilizado por pessoas que precisam gerir empresas, se relacionar com outras pessoas, ir ao cinema e, ocasionalmente, alugar um apartamento. Enfim, um livro de estratégia militar virou auto-ajuda, mas no país do Paulo Coelho, quem sou eu para questionar? Eu deveria ter lido. Sair correndo descontroladamente em direção ao mercado de imóveis de uma cidade como São Paulo é algo que nem o personagem de Mel Gibson, em Coração Valente, indicaria.

De boa vontade, comecei a dar uma olhada nos classificados de domingo, tanto da Folha, como do Estadão. Muitos imóveis saiam nos dois, mas os que mais pareciam vingar eram os encontrados apenas em apenas algum dos dois jornais. Algo igualmente fundamental é percorrer os bairros desejados e anotar números de placas. Ao iniciar as conversas com corretores, comecei a vislumbrar o que me esperava. Raiva e xingamentos, características de meu amigo. Primeiro problema: o corretor entender suas limitações.

- Oi, eu vi um anúncio de imóvel em uma placa e gostaria de informações - disse eu.
- Ah sim, é uma bela cobertura, e está saindo por 800 - me respondeu.
- MIL?!? É para vender então, né?
- Isso, mas é uma bela cobertura.
- Entendi. Mas foge um pouco do valor que estou procurando. [Eu exagerei ao dizer "um pouco". A verdade é que eu teria que ganhar na Mega Sena para comprar algo assim!].
- OK, mas se quiser, temos belas coberturas em torno de R$ 400 mil também! [Para essa, eu teria que vender um rim, um olho e algum conhecido].
- Saquei, mas a bem da verdade, estou procurando algo para alugar.
- Poxa, temos para alugar também!
- Ah é?! Você tem apartamentos para alugar, por até R$ 200, com condomínio incluso?! [Pretendia desencorajá-lo a continuar oferecendo-me apartamentos de valores absurdos].
- Não.
Tutututu. [Desligou na minha cara. Consegui].

Sabe quando você entra numa loja de roupas e a pessoa fica tentando te empurrar um produto, mas você sabe que não vai te servir, ou que está fora das suas condições de comprá-lo? Pois é. Alguns corretores são assim. [Continuo tentando não generalizar]. Outros, são pior ainda.

- Oi, meu nome é Gabriel... Vi um apartamento para alugar nesse bairro e estou interessado. Gostaria de informações a respeito dele.
- Ah sim, na verdade são três. Dois já foram alugados e o terceiro, o inquilino vai sair na segunda-feira da semana que vem. [Era uma terça-feira, e naquela semana haveria um feriado prolongado, na quinta e sexta-feira].
- Entendi. Mas eu tenho muito interesse e gostaria de ver antes, se possível.
- Olha, eu sei que está bacana, mas não tem mesmo como ver antes. O inquilino só sai na segunda.
- Entendi, mas não podemos tentar conversar com ele e tentarmos marcar algo antes disso? Só para eu saber como está, dar uma olhada, etc. Estou realmente interessado. [É preciso ser enfático nesse ponto. Muitos corretores acham que estamos querendo comprar um picolé].
- Desculpe Sr. Gabriel, mas não é possível mesmo. Mas fique tranqüilo, o seu telefone está super-anotado e eu vou... Qual é o seu telefone mesmo?
- É, eu achei mesmo que não tivesse te passado. Anota aí, por favor: 234-5678.
- Pronto, como disse, está super-anotado. E na segunda-feira, às 9h, eu te ligo para a gente agendar de ir lá.
- OK, mas tem certeza mesmo que não posso ir antes?
- Não, eu saberia disso.
- OK, obrigado.
[Passei a semana pensando no apartamento, vendo fotos da região no Google Maps, fotos de outros apartamentos do mesmo prédio, etc. Eu estava interessado no picolé. Digo, apartamento].

Segunda-feira, dia no qual o inquilino sairia, ligo às 10h para a corretora:
- Bom dia, é o Gabriel. Lembra-se de mim? Você ficou de me ligar às 9h, já são 10h e como estou realmente interessado no apartamento, gostaria de marcar de visitá-lo hoje.
- Ih Sr. Gabriel... Esse apartamento já foi alugado.
- HEIN???
- É, uma pessoa também estava muito interessada e eu acabei fechando com ela durante o feriado. Inclusive, já pagou o 1º aluguel.
- Como assim?! A pessoa fechou e deu um sinal sem nem ver o imóvel?
- Pois é.
- Pois é?! Você está realmente afirmando que a pessoa te deu o primeiro aluguel sem nem ver se o apartamento de fato existe?!
- Então, é que ele sugeriu de falarmos com o inquilino e conseguimos agendar uma visita antes.
- Sei.
- Pois é, mas seu telefone está super-anotado!
Tutututu. [Dessa vez, eu que desliguei na cara. Xingando, lógico].

E por último, há os proprietários dos imóveis. Eu havia visto, na Internet, em um site desses qualquer de anúncios, um apartamento de bom tamanho, ótima localização e um valor que parecia mentira. Liguei e descobri que havia uma pendência referente ao pagamento do condomínio, estimada em mais de R$ 3 mil. Mesmo o valor sendo repassado por inteiro, ainda saia em conta. Diversas vezes tentei agendar um horário com a proprietária, que sempre me pareceu um pouco confusa e estranha, mas segui tentando, pois parecia valer a pena. Ela disse que precisava resolver algumas coisas e sempre marcava para conversamos mais para frente. Foi assim durante três semanas, e ao percerber que não daria em nada, desisti. Passados quase dois meses, sugeriram que eu voltasse a ligar para ela. “Vai que ela não vendeu”. Era melhor já ter vendido.

- Oi moça, aqui é o Gabriel, lembra-se de mim? Liguei há algum tempinho para você, interessado no seu apartamento. Já vendeu?
- Não - disse, seca.
- Bom, ainda está interessada em vender, moça?
- Olha, eu não atendo ligações com número "não-identificado".
Tutututu. [Já estava ficando acostumado a isso].

Ligo novamente, dessa vez, do meu celular. Explico tudo de novo, de ter falado com ela há dois meses e ainda estar interessado no imóvel. Ela começa a se descontrolar e desliga o telefone na minha cara. De novo. Eu, persistente [também conhecido como "pentelho"] que sou, tentei mais uma vez, falando manso, quase pedindo desculpas por querer comprar o apartamento dela.

- Oi, desculpe, é o Gabriel de novo... Aliás, não sei seu nome, não sei como te chamar, moça.
- Olha, eu sei o que você está fazendo! Isso é perseguição! Toda vez que eu digo que tenho algumas coisas pra resolver, alguém coloca uma pessoa pra me vigiar, mas eu não vou cair nessa!!!
- Como assim?! Eu só quero informações. Eu já falei com você antes, mas você nunca podia marcar pra ver o apartamento, lembra-se?
- É, eu lembro, mas ninguém liga depois de dois meses de anúncio... Ninguém faz isso!
- Moça, eu não estou te ligando? Então, as pessoas ligam. Eu realmente fiquei interessado no apartamento. Mas não estou entendendo, você ainda quer vender o seu imóvel?
- Quero.
- Então qual o problema se estou te ligando dois meses depois? Você quer vender, eu quero comprar. É simples. Você tem certeza que quer vender?
- Tenho, se você tiver o valor dele à vista, eu vendo.
- Moça, eu tenho mais de R$ 5 milhões na minha conta! Mas preciso ver o apartamento. Você por acaso compra um carro sem nem saber que carro é, a cor, o modelo, etc?
- Não.
- Então, eu queria ver o apartamento.
- Não! Pare de me ligar! Isso é armação e chantagem, eu sei! Não me ligue mais!
- HEIN?! Você não disse que quer vender o apartamento?!
- Para você, não.
Tutututu [Ah, o som inconfundível de desligarem o telefone na sua cara].

Pensei em ligar novamente, dessa vez com intenção de botar terror pra valer na moça e entrar no jogo da conspiração. Mas percebi que estava sendo contaminado pela raiva do mercado imobiliário e a moça ainda tinha que lidar com todos aqueles corretores interessados no apartamento. Tadinha.

*Gabriel Louback é jornalista e acredita que há corretores imobiliários do bem. Mas nunca encontrou um da espécie.



Amanda  -  02/06/2008 ~ 19:13
Me divirto absurdo com esses textos. Estou até com raiva alheia, mas não consigo parar de pensar em uma coisa: afinal, já conseguiu um apto? beijos

 
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