
Com influências harmônicas do Jazz e da das batidas do candomblé, a Orkestra Rumpilezz existe desde 2006, e foi formada em Salvador por cinco músicos de percussão e catorze de sopro. Cultivando uma sonoridade dissonante, original e muitíssimo bem trabalhada, a Orkestra revigora um cenário musical cada vez mais carente de arte. Por causa do MySpace, o grupo já despertou interesse em alguns nomes da música popular brasileira, como Max de Castro e Ed Motta, que já gravou participação no primeiro disco do grupo.
Seu idealizador é Letieres Leite – também saxofonista e arranjador da banda de Ivete Sangalo. Ele cursou Artes Plásticas pela Universidade Federal da Bahia [UFBA] no final dos anos 1970, mas abandonou o curso para tentar a carreira profissional como músico. Começou autodidata, aos 19 anos, tocando flauta. Depois, morou por 11 anos na Europa, onde estudou no Konservatorium Franz Schubert em Viena, na Áustria, e na Swiss Jazz School, em Berna, Suíça, para só então voltar ao Brasil e se juntar às bandas de Lulu Santos, Elba Ramalho, Gerônimo e Daniela Mercury. Os músicos da Rumpilezz também se dividem entre a orkestra e a instrumentação de grupos como Araketu e Tribahia.
Em entrevista excluisva à Paradoxo, Letieres Leite e André Becker – saxofonista da Rumpilezz e flautista da OSBA [Orquestra Sinfônica da Bahia] –, falam sobre o surgimento do grupo, as influências e a gravação do primeiro disco, e afirmam que - acredite! - o massificado axé baiano e o som visceral da orkestra têm muito em comum. “As duas coisas são totalmente compatíveis, têm a mesma matéria prima. A música da Bahia começa e termina na percussão, a menos que você faça uma música que não tenha esse tipo de influência. Em termos de negócio, o produto de Ivete Sangalo é feito para vender milhões, e eu tenho consciência que o meu produto não é pra vender milhões”, sustenta Letieres.
Revista Paradoxo - Quando e como pintou a idéia de montar a Orkestra Rumpilezz?
Letieres Leite - Quando a gente está no exterior quer mostrar a coisa mais nossa possível, mais “Brasil” possível. Daí pensei: não vou ficar em cima do baião porque esse universo já foi tão explorado por Hermeto [Paschoal] que sobrou pouca coisa pra mostrar. A outra possibilidade seria o samba de Dorival [Caymmi], e depois teríamos a bossa nova, partido alto, chorinho, todo o universo do samba... Queria algo mais original. Então, fui pro Candomblé. Me associei com um percussionista que era especialista em atabaques e fui a aprender do zero, fiz as primeiras experiências ainda na Europa.
Foi quando constatei, já fazendo arranjo pra muita gente aqui na Bahia, que a organização da percussão do Candomblé era uma coisa muito rigorosa e com uma consistência absurda. Na música da Rumpilezz, eu queria provar que o sistema de claves na música da Bahia era tão organizado que poderia ser também pintado como uma música mais sofisticada, como música instrumental. Tinha necessidade de falar para as pessoas prestarem atenção a essa riqueza que eu havia constatado a nível teórico, e que era extremamente maleável.
RP - Vocês estão na ativa desde 2006 e as influências são diversas e extremamente importantes. O som do candomblé, o jazz, e muito de Sun Ra é o que a gente percebe. Dá pra definir a musicalidade de vocês dentro de um gênero? Vocês, aliás, acreditam em gêneros musicais hoje em dia?
André Becker - Eu acho que o gênero é bom para que o público, de antemão, já saiba mais ou menos o que virá daquele grupo ou daquela banda. Mas não acho que o grupo deva se limitar a esse gênero. Pode ser predominantemente um jazz-rock, mas que ele também vá pelo rock ou do hard rock; ou um grupo de jazz que vá pela área do chorinho, e seja aberto... A Rumpilezz eu acho que seria world music, porque tem essa coisa da bahia, tem o ijexa, tem o samba, samba reggae, e a África. Não dá pra chamar de jazz porque muito da clave africana e baiana, algo que realmente não tem no jazz.
RP - O Ed Motta afirmou à revista Veja, ano passado: “No mundo dos colecionadores de vinil, o escaninho da Orquestra Rumpilezz seria Spiritual Jazz”.
Letieres - O Ed Motta nos conheceu através do MySpace, e disse que ia nos apresentar a um selo que ele conhecia no Japão, o Spiritual Jazz.
André: Acho que ele basicamente está falando na energia que rola. A gente está mexendo com ritmos africanos e com melodias bem significativas, bem soul, vindas do coração.
RP - Vocês afirmam que esses arranjos e composições “foram criados a partir das claves e desenhos percussivos deste revolucionário Universo Percussivo Baiano”.
Letieres - Quando eu falo de percussão, eu falo de percussão ancestral, aquilo que a nação Jejé trouxe, a nação Ketu trouxe, os angolanos trouxeram, a contribuição de outras tribos menores africanas. Isso faz o nosso ineditismo, porque não foram nem uma, nem duas, nem três famílias que tinham o mesmo estilo, era um grupo de pessoas dentro do mesmo lugar, do navio até aqui, que tinham estilos completamente diferentes. Eram culturas antagônicas, mas que por questão de sobrevivência, se uniram. E o lugar onde toda essa cultura foi preservada é o Candomblé. Esse é o universo em que me inspirei para compor as músicas da Rumpilezz. A clave é a menor porção do ritmo que você identifica, como se fosse o DNA.
RP - Vocês não acham que esse universo percussivo baiano acaba chegando ao ouvinte brasileiro muito deturpado ou reduzido? Falamos dessa pasteurização da axé music, que infelizmente, é o que acaba simbolizando toda a musicalidade baiana.
André - Com certeza, porque existe um certo pensamento pequeno da maioria dos empresários – temos essa exceção agora que é Jesus Sangalo, que está apoiando a gente, e embarcou nessa obra. Fora ele eu diria que praticamente todos os outros não tem uma visão um pouquinho mais ampla da musica da Bahia. Tem muito essa coisa de "vamos investir nisso aqui que está dando certo e vamos ganhar dinheiro", quando na verdade, a Bahia sempre foi um celeiro de cultura, e novas facetas da música. Então, assim como o axé é muito amado no Brasil, ele é muito repudiado também. Tem muita gente que acha que a música da Bahia é só axé, e não gosta de axé, então não gosta da música baiana. E isso é um erro porque quando a coisa fica muito mercadológica, só naquela pasteurização de som, as pessoas não têm acesso a outro tipo de música.
RP - Você, Letieres, é saxofonista de Ivete Sangalo. Ela é um mega ícone pop – um símbolo brasileiro no exterior. Tem um trabalho massificado bem produzido e elogiado dentro das matrizes radiofônicas, mas que não traz nenhuma renovação musical. Por outro lado, você mantém esse trabalho inovador e musicalmente mais rico, com a Rumpilezz. São coisas diferentes e que devem conflitar para você e para os outros músicos que trabalham em outras bandas do axé. Como é que vocês administram isso? Letieres - O conflito existe na questão da agenda, isso é que é verdade. Mas na questão da música não existe conflito nenhum. Os dois trabalhos que eu faço são totalmente compatíveis. Ambos trabalham com a mesma matéria prima. A música da Bahia começa e termina na percussão, a menos que você faça uma música que não tenha esse tipo de influência. Ideologicamente não tem conflito nenhum, é só uma questão de enfoque. Em termos de negócio, de produto, o produto de Ivete Sangalo é feito para vender milhões, e eu tenho consciência que o meu produto não é pra vender milhões.
RP - Vocês andaram gravando algumas participações em discos de outros nomes baianos como o Marco Lobo, que tem um trabalho musical relevante. Como andam as parcerias com essas figuras? Como está a movimentação dessa cena baiana que as pessoas de outras regiões do Brasil, na maioria das vezes, não ouvem falar?
Letieres - Foram casos muito raros as participações. De disco foram dois, o de Emerson Taquari, que também é músico da Orkestra, e Marcos Lobo.O que acontece muito é do musico participar como convidado e dar uma canja na Orkestra. Agora, citar trabalhos na Bahia que eu ache interessante... bem, tem um cara com um trabalho aqui na Bahia,que além de extremamente bem feito, está preocupado com a mesma coisa que eu estou: procurar elementos daqui para criar uma música em cima do nosso conceito rítmico. É o Jurandir Santana. Têm também nessa mesma tendência, o trio formado por Marcelo Galter, Ledson Galter & Vitor Brasil. Outro trabalho, fora dessa linha, que eu gosto demais, e acho uma pena ainda não ter sido descoberto por uma grande gravadora é o Retrofoguetes, que tem toda a influencia da surf music, a música dos anos 50, com uma característica própria.
RP - A Orkestra lança disco esse ano? Como anda esse processo, qual será o selo/gravadora, e quando deve sair?
Letieres - O disco está gravado. Gravamos no TCA [Teatro Castro Alves], pois precisávamos de uma área que mantivesse a sonoridade de música acústica, um lugar muito alto, com os microfones dispostos em várias camadas, como uma cebola. Fizemos o show, que foi captado com esse sistema. Daí falamos: “como a gente vai mixar?”. Tinha que ser uma pessoa que entendesse de Big Bands. Uma pessoa descobriu a gente e nos apresentou um grande produtor dos Estados Unidos, o Joe Felar, que topou mixar o disco. A mixagem está marcada para começo de Agosto, lá em Nova Iorque. Depois disso, ele mesmo vai apresentar o trabalho aos selos americanos.
RP - O Ed Motta terá participação?
Letieres - Quando o Ed Motta veio à Bahia - eu achei de uma gentileza absurda ele ter vindo - fiz uma retribuição. Escolhi, dentro do repertório dele, uma música que tivesse um caráter parecido com o da Rumpilezz. Ele tem uma música,Balendoah, em doze por oito que é um alujá [toque do Candmblé]. Ele não toca como alujá, mas o baterista sugere alujá várias vezes, e aquilo me chamou a atenção. E aí eu trouxe essa linha pro nosso lado. Botei o alujá mesmo, tocamos a música dele, e de tanto tocar ela ficou boa. Então ele sugeriu de cantar. Fui pro Rio de Janeiro e ele colocou a voz. Entrará no disco.
RP - Letieres, você fundou a AMBAH - Academia de Música da Bahia. Como surgiu a iniciativa e quais são os propósitos da AMBAH? Como é que anda esse projeto?
Letieres - A AMBAH surgiu quando eu voltei da Europa, quando eu tinha a idéia de passar esse conhecimento de lá para as pessoas daqui. A idéia era profissionalizar o músico, com enfoque em pessoas de baixa renda. A gente queria criar condições, fazendo associações com empresas que pagassem para essas pessoas tocarem. Mas isso não foi possível. A escola só funcionou com aluno pagante, particular. Isso nos entristeceu, mas estamos fazendo uma reformulação geral. Voltamos pro início praticamente, reformulando um projeto pela Lei de Incentivo, como uma empresa realmente instituída, pra que a gente possa realizar o nosso grande sonho que é um ensino de música profissional. Que esses meninos possam ter a mesma capacitação que nós tivemos, pois eu acredito que em pouco tempo eles vão poder dar um retorno para a família deles. Sendo um músico profissional, por menos que você ganhe, vai ganhar muito mais do que sendo um sub-trabalhador de qualquer outra profissão.
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