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Mentiras sinceras

A mentira era verdadeira, o sorriso sincero era falso

por Bruno Reis
de Vila Velha - ES

[25/06/2008]

Ela era doce e seus cabelos eram loiros. O rosto, branco e suave, às vezes nem parecia de verdade, de tão bonito. O sorriso era sincero mesmo quando ela mentia. E sabia mentir como poucos, colocava em prática esse talento pelo menos umas cinco vezes ao dia. E eu acreditava sempre, sem a menor cerimônia. Comprava todas as suas balelas com o maior prazer, deixava que me enganasse e, por minha vez, fingia acreditar em tudo piamente, sem nunca ousar duvidar de sua palavra. Estava certa e era verdadeira sempre, e ai de quem dissesse que não.

A principal mentira que contava é que não sabia cantar. Falava na maior cara de pau, enfiando aqueles olhos azuis dentro dos meus sem parcimônia, dando mais veraciade ainda a tudo. E eu fingia que acreditava, claro. Ela tinha uma voz tão leve que as conversas mais exaltadas pareciam recitais. Quando sussurrava, então, era capaz de enfeitiçar. No banho deixava escapar letras de músicas que amava e melodias perdidas entre batuques de dedo no vidro do box e no pote de xampu. Eu ouvia escondido, sorrindo para mim mesmo ao perceber pela milésima vez que ela sabia estar mentindo, sabia que eu não acreditava e sabia que o meu prazer de fingir que comprava a idéia e depois vir ouvi-la escondido era tão grande quanto o dela de insisitir em uma mentirinha fresca e depois desmenti-la em alto e bom som embaixo do ruidoso chuveiro.

Outro dia deu pra dizer que me amava. Fingi que acreditava e respondi o que ela queria ouvir, "eu também te amo". Ela voou no meu pescoço, me abraçou longamente cravando as unhas nas minhas costas e me deu um beijo de acabar com qualquer fôlego. Aquele sim era um beijo de verdade, apesar de toda a mentira que a fizera chegar àquele ponto. Eu nem liguei, correspondi ao beijo, ao abraço e a tudo que se seguiu com toda a disposição do mundo. Sabia que ela estava apenas querendo ser amada, buscava em mim o que a natureza constantemente tirava dela por pura falta de jeito - ela simplesmente não tinha as manhas de amar de verdade. Depois do beijo e do tudo que se seguiu, ela sorriu de novo para mim, aquele sorriso sincero de mentiras deslavadas, e cantou uma canção enfiando novamente aqueles olhos azuis dentro dos meus e deixando a franja de cabelos dourados cair jeitosa sobre sua testa.

Sim, eu a amava com todas as minhas forças, de todas as mais variadas maneiras, com todas as impossibilidades, cego, surdo, mudo, louco de pedra e sendo constantemente ludibriado por aquela doçura de mulher. Sim, eu sabia de tudo que iria acontecer depois, do quanto ela me faria sofrer mais uma vez, de como eu iria me odiar ao ser obrigado a me deparar com tudo aquilo de novo. Sabia o quanto iria praguejar por ter me deixado levar por aquele momento. Mas era essa a única maneira que encontrei de me sentir vivo, de fugir da minha vida patética por alguns segundos - e aproveitava todos, sabendo que a minha verdadeira vida não era aquela. Eu também mentia para mim, mas e daí? Se eu acreditava nas mentiras dela sem nem cogitar protestar pela verdade, por que não poderia acreditar nas minhas próprias mentiras de vez em quando?


 

*Bruno Reis é publicitário por formação, escritor por paixão e teimoso por falta de opção. Aprendeu a convivver com as possibilidades, os sorrisos, as verdades, as mentiras e os cabelos loiros.



carol  -  26/06/2008 ~ 14:53
“every time you close your eyes, lies, lies!” =) eu, particularmente, adorei essa moça loira de olhos azuis. (hahaha) comentário besta já que, dizer que texto seu é lindo, virou redundância. =)

Sayonara Borghardt  -  vitoria_ES  -  27/06/2008 ~ 11:39
Oi! sei que é tarde pra me desculpar...mas gosto de dizer, nesse caso, escrecer o que penso...e esse texto está maravilhoso, me faz lembrar uma pessoa,rs eu conheci aqui por acaso e acabei gostando, e percebi que temos "amigas" em comum!É isso! tenha um ótimo fim de semana. BJOS**

Ana  -  Caxu  -  02/09/2008 ~ 11:02
Uau! Como sempre, muito bom! Perdi o fôlego

 
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