Quando a saudade me deixa completamente surdo, sou capaz de recordar cada vez que nos encontramos. É algo que me acontece com certa frequência, devo confessar. Vivo em um limbo profundo sem você, tomado até os ossos por uma saudade tão dolorosa que nem mesmo os remédios para dormir são solução nas noites em que ela bate. Eu tento seguir em frente, mas me desespero quando não consigo escutar meus próprios gritos. Hoje é um desses dias, e não me furtarei em dividir minha aflição com você.
Na primeira vez que te vi nada parecia de verdade. O céu estava tão cheio de nuvens fofas e de diversos formatos que pareciam ter sido colocadas ali por algum escultor habilidoso. As ruas estavam incrivelmente vazias, não passava sequer um carro, um ciclista ou um pedestre distraído. E você tampouco parecia ser real. Estava mais para uma personagem de conto de fadas, com aquele vestido brilhante que se arrastava no chão, o chapéu rosa pontudo na cabeça e nas mãos uma varinha de condão com uma estrela na ponta. Eram sete horas da manhã e eu deveria adivinhar que você estava voltando àquela hora de uma festa a fantasia. Revejo essa cena várias vezes na minha cabeça.
Dias depois passei por você na calçada da sua casa. Te vi caminhar alguns metros, abrir o portão e entrar sem olhar para trás. Eu ia atravessar a rua, mas desisti. Lá dentro vi que seus olhos me procuraram, curiosos pelo segundo encontro em tão poucos dias. Nunca nos tínhamos visto, e agora já nos sentíamos conhecidos um do outro, ainda que à distância. Também pendi a cabeça para o lado pra observar você sumir nas folhas verdes do seu quintal, mas consegui ver muito pouco. Seu blusão azul logo desapareceu no meio daquele jardim primaveril, e eu segui meu caminho imaginando se você tinha mesmo me procurado com o olhar ou se eu havia criado a curiosidade alheia.
Uma semana se passou até que eu te visse de novo. Desta vez eu estava sentado na cadeira do barbeiro, olhando para o teto mofado e cheio de infiltrações, ao mesmo tempo torcendo que nada pingasse na minha testa enquanto minha barba era aparada. Uma moça entrou e perguntou se alguém sabia a que horas o mercadinho ao lado fechava. De canto de olho vi apenas a calça jeans, surrada de fábrica, e um braço de pêlos suavemente loiros que se alongava até a mão segurando uma pequena lista - que assumi como a lista de compras para o tal mercadinho que já havia fechado há alguns bons minutos. Apenas quando me dei conta de que podia ser você pedi ao barbeiro um minuto para me ajeitar na cadeira. Levantei o rosto e dei de cara com seus olhos enormes e atentos aos meus movimentos. Por menos de um segundo eu não soube o que fazer. Foi aí que você agradeceu ao barbeiro pela informação, virou as costas e foi embora sem nada mais falar.
Na quarta vez eu já esperava o que ia acontecer. Passava das onze da noite e aquele bar mal iluminado já se preparava para fechar as portas. Uns pediam o chope derradeiro, outros tragavam seus cigarros como se fossem os últimos de suas vidas. Você apenas olhava para o céu escuro e vazio de estrelas, enquanto um cidadão qualquer de cabelos despenteados e camisa amarela falava sem parar do outro lado da mesa. De dentro do meu carro observava o final daquela cena, torcendo que saísse de lá sozinha. Em vão. Minutos depois vocês se levantaram, ele ainda falando e você ainda muda e a olhar para o alto, deram as mãos e rumaram estacionamento adentro. Logo saiu um belo carro prateado, imenso, e lá dentro você continuava entretida a procurar estrelas naquela imensidão negra.
Eu não queria que tivesse uma quinta vez. Me senti traído, passado para trás. Te ver com outro cara não estava nos meus planos, e eu nunca iria imaginar que naquele mesmo dia vocês terminaram pela terceira e última vez um namoro que nunca deveria ter começado, segundo suas próprias palavras. Resolvi que não passaria mais pela sua rua, deixaria a barba crescer, se preciso até os joelhos, e nunca mais iria parar na frente dos bares para procurar esses cabelos encaracolados. Mudei meu trajeto de volta do trabalho e de saída da faculdade, tudo para não dar de cara com você. E até hoje me pergunto o que você estava fazendo no meu prédio aquele dia, e como a gente conseguiu trocar cumprimentos tão formais depois do susto de te ver entrando no elevador. E, diabos, quem mora no quinto andar?
Nesse dia eu achei que havia recebido uma clara mensagem do destino. Voltei para meus caminhos habituais, certo de que encontraria com você mesmo que eu não quisesse, porque assim queria o destino e é ele quem rege a nossa vida. Mas passei quase uma semana sem esbarrar contigo. Aquilo me preocupou tanto que passei a carregar a tiracolo uma câmera fotográfica digital, dessas tecnológicas, de zoom poderoso, que aproximam o objeto da foto dezenas de vezes. Queria registrar a sua imagem e guardar comigo para os dias em que não nos encontrássemos. A sexta vez demorou, mas chegou. Eu não fazia idéia do quanto ela seria decisiva.
Você entrou pela porta verde do mercadinho, pediu alface, rúcula, majericão e parou ao meu lado. O "oi" que eu ouvi me fez viajar quilômetros até a resposta, que pode parecer óbvia agora mas soava como o grande mistério do universo naquele momento. Respondi quase sem voz, e você já emendou dizendo que me viu em um monte de lugares, que parecia que me conhecia há anos, que sempre teve vontade de falar comigo mas faltava um pouco de coragem. Eu respondi meio sem graça que fui pego de surpresa, pensava o mesmo mas nunca tinha tido coragem de falar. Você começou a puxar conversa, comentou do seu namoro recém-terminado e contava que voltava de uma festa a fantasia no dia em que nos vimos pela primeira vez, quando recebeu da funcionária do mercadinho o seu pedido em sacolas plásticas. Logo recebi o meu e fui pagar a conta. Você disse que esperava me encontrar de novo e foi saindo do mercadinho, quando eu chamei "ei!". Você se virou com a expressão mais encantadora no rosto e eu fui veloz em fotografa-la neste momento. Um outro sorriso surgiu na hora, um pouco encabulada mas feliz, momentos antes de você dar um beijo no ar e ganhar a rua.
Eu já havia me acostumado com a rotina de querer te encontrar, mas não imaginei que te conheceria assim, tão abrupto, tão rápido, tão pouco. Foram meses a fio frequentando os mesmos lugares, passando pelas mesmas ruas, sempre com a minha câmera na mão e rodeado de esperança de te encontrar novamente - algo que nunca aconteceu. Até hoje não faço a mínima idéia de onde você se meteu, se por acaso se mudou de casa, de cidade, quem sabe até de país. Nem sei mais o que esperar, se mantenho minhas esperanças acesas ou se luto por uma desistência interna. Alguma coisa precisa ser feita. O que não dá é continuar a conversar com a única fotografia sua que tenho toda vez que essa saudade atordoante de alguém que mal conheci aperta e me deixa surdo por completo.
*Bruno Reis é publicitário por formação, escritor por paixão e teimoso por falta de opção. Sabe que lidar com uma saudade tão grande pode não apenas cegar, mas também paralisar a vida de alguém.