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Não é uma obra ‘de arte’

América do Sul recebe a primeira individual de Marcel Duchamp, um dos mais controversos artistas do século 20

por Fernanda Lopes
[28/07/2008]

 

 

Andando pela sala de exposição, a repórter vê um homem entretido com algum detalhe em uma das paredes. Não parecia ser uma obra de arte. Ela parou para ver o que ele observava. Era um dos aparelhos responsáveis por controlar a umidade do ar, comum nas exposições de arte. Ela continuou observando, e quando o homem saiu de perto da “obra”, pôde ver que na base onde o aparelho estava - muito parecida com uma base de escultura - alguém colocou um pedaço de fita crepe e escreveu “Duchamp 2008”.

 

Enquanto a repórter fotografava a brincadeira, um dos seguranças se aproximou e perguntou, segurando o riso: “você sabe o que é isso, não é?”. “Sei, sim”, ela respondeu. Ele não ficou convencido e continuou: “é um aparelho para controlar a umidade”. E riu. A repórter riu também, mostrou que fotografava por causa da etiqueta e pediu que ele não a tirasse. Ele pensou um pouco e respondeu com um riso quase de vingança: “não vou tirar. Nessa exposição pode. Ele [Duchamp] não pega tudo dos outros e diz que é dele? Você viu que no início da exposição tem uma Monalisa, que ele só colocou o bigode e disse que é dele?!”

 

Essa história, que a repórter jura que é verdade, talvez cumpra melhor do que qualquer obra da exposição Marcel Duchamp: Uma Obra que não É Uma Obra ‘de Arte’ a difícil tarefa de apresentar ao público a produção, e mais importante, o pensamento do artista que revolucionou a história da arte no século passado, e cujos efeitos sentimos até hoje. O Museu de Arte Moderna de São Paulo [MAM-SP] apresenta ao público a primeira grande individual do artista franco-americano Marcel Duchamp [1887-1968] na América do Sul, com curadoria de Elena Filipovic, atual co-curadora da Bienal de Berlim e especializada na obra do artista. Concebida como uma parceria entre a instituição brasileira e a Fundação Proa, de Buenos Aires, a exposição reúne aproximadamente 120 itens, que vão desde pequenos objetos até aqueles trabalhos considerados suas grandes obras-primas.

 

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O marco inicial da exposição é o ano de 1913, quando Marcel Duchamp, nascido em 28 de julho de 1887 na região da Alta Normandia, na França, apresentou na exposição Armory Show, nos EUA, o trabalho Nu Descendo a Escada [imagem que, partida, compõe o topo e o rodapé desta matéria]. A pintura apresenta uma sobreposição de figuras que lembra formas humanas, sugerindo a idéia de um movimento contínuo, descendo uma escada, e fez muito sucesso na exposição. As pessoas chegaram a esperar 40 minutos para ficar diante dela por poucos segundos.

 

São também dessa época seus trabalhos mais famosos. Os ready-mades: objetos encontrados no mundo cotidiano, como um urinol, um porta-garrafas e uma roda de bicicleta, que o artista levou para a galeria. Com esse gesto, Duchamp buscava questionar a idéia e os padrões de arte vigentes naquele momento, elevando ao status de arte objetos produzidos industrialmente. A partir de Duchamp, arte não era mais o fazer, e sim o pensar.

 

Outras peças importantes da produção do artista podem ser vistas no MAM. É o caso de L.H.O.O.Q. [1919], a famosa "Monalisa de bigode e cavanhaque”. As letras do título da obra pronunciadas em francês formam uma frase que, traduzida, significa algo como “Ela tem fogo no rabo”. Segundo Duchamp, esse seria o motivo do sorriso enigmático da moça retratada. A exposição reúne também os primeiros estudos de



 
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