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''Minha religião é o cinema''

José Mojica Marins está de volta com personagem que lhe rendeu fama - Zé do Caixão

por Jairo Lavia
[05/08/2008]


Escutar José Mojica Marins relatar o calvário que envolveu a produção de Encarnação do Demônio é adentrar por uma história daquelas do tipo “acredite se quiser...” Mas é tudo verdade e, em se tratando de cinema brasileiro, tudo é possível. Uns cinqüenta jornalistas atentos enchem a sala anexa do CineSesc para escutá-lo acompanhado de Milhen Cortaz, o produtor Paulo Sacramento e o staff de produtores da Gullane Filmes e da Fox Film do Brasil. O que se segue é uma sucessão de risadas após cada relato. Ironia e sarcasmo também fora da tela do homem que agora mantém comprida somente a unha do dedão esquerdo de sua mão.

Aquele que se denomina com razão um dos últimos remanescentes da rua do Triumpho - numa referência aos cineastas que se formaram na famosa Boca do Lixo no centro de São Paulo - está radiante com o resultado final. Não é para pouco, seu filme conta com uma grande estrutura de produção e está rodeado de talentos. Da nova geração do cinema brasileiro - Paulo Sacramento na produção e montagem e o ator Milhem Cortaz como o padre vingador; e da velha geração – Helena Ignez, Cristina Aché, Jece Valadão, em seu último filme antes de falecer em novembro de 2006, Adriano Stuart e Rui Rezende. Além da aparição do homem do teatro Zé Celso Martinez Correa e das assinaturas de André Abujamra na trilha sonora, Alexandre Herchcovitch no figurino e as homenagens mais do que especiais ao cineasta Rogério Sganzerla e ao crítico Jairo Ferreira. O entusiasmo é tamanho a ponto de gerar revelações do tipo – “Eu não posso cometer esse equívoco. Eu sempre sonhei em ter a Fox como distribuidora”, afirma o mais independente entre os cineastas brasileiros.

Quarenta anos separam a concepção de Encarnação do Demônio até a sua realização de fato, num daqueles episódios bizarros que envolvem a censura no Brasil e algumas mortes pelo caminho. O filme que fecha a trilogia do Zé do Caixão premeditava ser um daqueles casos natimortos. Em 1967, ano da sua primeira tentativa de produção, Mojica já se debatia com a censura a se ver obrigado a retalhar trinta segundos do final de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver no que se refere ao ateísmo do personagem, além de acrescentar uma música sacra para suavizar o horror na tela. Por imposição dos milicos, Zé do Caixão transforma-se num temente a Deus enquanto afunda nas águas sujas de um lago proferindo as palavras “Deus... Sim... É verdade... Eu creio na tua força”. [foto acima]

O censor convocado para avaliar o filme escreveu no processo: “O filme ora examinado focaliza as facetas de um autêntico débil mental que não acreditava na reencarnação. (...) O filme é de um mau gosto terrível”. Do outro lado do balcão, os verdadeiros imbecis prejulgavam com seus avisos: “Não tente o seu terror!”, em referência a Encarnação do Demônio. O procedente foi aberto para outra produção, O Ritual dos Sádicos – O Despertar da Besta, rejeitado pela censura em 1970 e liberado após doze anos.

O périplo envolveu a produção de Encarnação do Demônio nos anos seguintes, num enredo que lembra mais uma comédia de humor negro. Primeiro com o investimento de um produtor americano nos anos 70. O que, segundo Mojica, aliviaria o lado inquisidor da Ditadura Militar. Novas mudanças no roteiro, tudo pronto para o início das filmagens, quando então o produtor é diagnosticado com câncer na garganta.

Vieram alguns filmes menores e pornôchanchadas. Corria o ano de 1987 quando então surge uma nova chance para o filme, agora com o produtor espanhol Augusto Cervantes, colaborador dos dois primeiros títulos da série Zé do Caixão, À meia-noite levarei sua alma e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver. “Não casou, não tinha sócio... Eu estou perdido”, lembra Mojica, ao saber da morte do produtor que acabara de colocar uma ponte de safena. Não era ainda dessa vez que o desfecho da trilogia sairia do papel, com exceção de um dia de filmagem numa festa de Yemanjá.

A história daí para frente é bem conhecida – Mojica cai aos poucos num ostracismo forçado, com lampejos de sua figura impar, faz fotonovelas e filmes de sexo explícito para sobreviver. Entraria os anos 90 e o cineasta longe do cinema, restrito às noites de terror do Playcenter e à direção de sua escola de arte dramática criada nos anos 50. Veio o reconhecimento nos Estados Unidos como Coffin Joe e os ecos de seu personagem reverberando na cultura popular e na nova geração de cinéfilos, críticos e cineastas.

“Parecia o fim de tudo, eis que surge um homem chamado Ivan Novaes. Eu só queria saber uma coisa – se ele tinha dinheiro”, diz, se referindo ao financiamento do tão esperado filme. “Ele era sozinho, não casou... não tinha sócio... Começou a me dar um medo...”

Mais modificações no roteiro e a formação do elenco, que teria desta vez a atriz Ítala Nandi. “Comprei um terno de linho branco para estrear no almoço de apresentação da produção. Eu pronto para sair, atendo o telefone e é a Ítala Nandi dizendo para eu não me entusiasmar tanto". "Não será um almoço e sim um velório. Ele morreu de emoção", disse a atriz

“Troquei o terno branco pelo preto. Quanto à grana, esta voltou para onde tinha vindo", afirma o cineasta. 

Quando os produtores Dennison Ramalho e Paulo Sacramento o procuraram, desta vez nada minaria a produção. Pelo menos não havia nenhuma morte à vista, além do fato de Sacramento ser casado e ter sócios. “Eu ainda estava na dúvida se devia aceitar. Meu filho, advogado, sentenciou: ‘pai, você está com a idade um pouco avançada...’”.

O impulso foi dado pela verba de R$ 500 mil da Secretária de Cultura do Governo de São Paulo e mais o acréscimo de R$ 1 milhão do incentivo para filmes de Baixo Orçamento. Para os padrões Mojica/Zé do Caixão é verba para uma superprodução. “Só o Brasil que cria essa denominação de trash, por que é Terceiro Mundo. Fazia fita de baixo orçamento, só com o negativo e muita colaboração da equipe, que trazia o seu sanduíche de mortadela. Nos Estados Unidos, se falar em trash está correndo o risco de até apanhar”.

Quando questionado sobre suas influências, o cineasta não se fez de rogado - “Eu morava no fundo de um cinema. Às terças e quintas-feiras tinha uma sessão sobre doenças venéreas. Aos quatro anos, a primeira coisa que vi na minha vida num telão foi uma vagina com gonorréia. Aquilo me atormentou e nunca consegui retratar aquela imagem nem no inferno, nem no purgatório de tão pesada que era”.

E acrescenta: “Essa foi minha primeira influência de filme de terror. No cinema internacional, não tive nenhuma outra. Só depois que fiz À Meia noite Levarei sua alma que conheci alguns nomes, como Boris Karloff e também do expressionismo alemão. Muita coisa nascia direto das lendas, de ficar sentado à noite contando histórias de medo.”

Com o fechamento da trilogia, quarenta anos depois, Encarnação do Demônio mantém a mesma determinação filosófica – a busca interminável pela mulher superior para gerar o filho do Zé do Caixão. “Considero este filme a Bíblia do Terror da América Latina. Eu sigo o caminho de Deus, mas a minha verdadeira religião é o cinema”.

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A volta do Maldito: Quatro décadas depois, José Mojica Marins conclui sua trilogia do Zé do Caixão, a saga de horror mais cultuada do cinema brasleiro

 



Renata D´Elia, da redação  -  São Paulo  -  06/08/2008 ~ 23:18
Belo registro, Jairo, parabéns! Grande Mojica!

Geo Euzebio  -  07/08/2008 ~ 20:11
texto lindo! fez juz ao amor do Mojica pelo cinema.

 
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