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Pelos sonhos perdidos
Na busca da fuga ideal, personagem de Paraíso Perdido encontra crueza da vida por Luciana Monte
A protagonista da história de Nooteboom é Alma, uma paulistana que embarca após sofrer um estupro para a Austrália em busca de um mundo mitológico. Sonhadora, ela idealiza os aborígenes [habitantes ancestrais da região] elevando-os à categoria de anjos – mais um grupo na narrativa que exerce fascínio. A primeira parte do livro é narrada sob o ponto de vista de Alma e o leitor é tragado por seus pensamentos e sonhos líricos. A amiga Almut, que a acompanha na aventura, é sua única ligação com a realidade. É ela quem se ocupa das questões pragmáticas, como por exemplo a logística da viagem e as formas de se conseguir dinheiro. O que prevalece, no entanto, é sempre o devaneio, somado pelo mergulho de Alma em si mesma e numa cultura em que, afinal, não corresponde ao seu idealismo. Não que uma mudança não se transcorra: ela se torna um anjo aos olhos de outros. Nooteboom muda o tom e o fluxo da escrita várias vezes. Da primeira para a terceira pessoa; do presente ao passado e novamente ao presente; de uma ponta do planeta à outra; da O próprio ato da escrita e suas decorrências são objeto de análise de Nooteboom. Como a crítica literária, profissão a que se dedica Erik Zondag, personagem da segunda metade do livro. Paraíso Perdido consegue ser leve e melancólico a um só tempo. Ao leitor, cabe fugir à tentação de racionalizar os meandros da história – melhor é senti-la, perdendo-se na sua fluidez.
“Tornei-me inabordável, soberana. Se fosse um instrumento musical, produziria a mais bela das músicas. Sei que não posso dizer nada dessas coisas a quem quer que seja, mas juro que é verdade. Pela primeira vez na vida entendi o que queriam dizer na Idade Média quando falavam da harmonia das esferas. Estou fora, e não apenas vejo as estrelas, também as ouço.” “Nesse mundo tudo se dá ao mesmo tempo: poesia, a maneira integral como vivem; é muito sedutor para as pessoas que vêm de algum lugar onde quase tudo está errado. A conseqüência é que tudo, ou quase tudo, se aniquila. Não é isso o que todo mundo vem buscando desde sempre, o paraíso perdido?”
Lucia Freitas - São Paulo - 06/08/2008 ~ 18:35
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