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Pelos sonhos perdidos

Na busca da fuga ideal, personagem de Paraíso Perdido encontra crueza da vida

por Luciana Monte
[06/08/2008]

Há livros que, mesmo em prosa, transbordam poesia. Assim é Paraíso Perdido, de Cees Nooteboom, escritor holandês de destaque e um dos convidados da FLIP 2008. Não por acaso, ele empresta o título do poema épico do inglês John Milton ao livro, referenciado em diversos momentos da história.

A protagonista da história de Nooteboom é Alma, uma paulistana que embarca após sofrer um estupro para a Austrália em busca de um mundo mitológico. Sonhadora, ela idealiza os aborígenes [habitantes ancestrais da região] elevando-os à categoria de anjos – mais um grupo na narrativa que exerce fascínio.

A primeira parte do livro é narrada sob o ponto de vista de Alma e o leitor é tragado por seus pensamentos e sonhos líricos. A amiga Almut, que a acompanha na aventura, é sua única ligação com a realidade. É ela quem se ocupa das questões pragmáticas, como por exemplo a logística da viagem e as formas de se conseguir dinheiro. O que prevalece, no entanto, é sempre o devaneio, somado pelo mergulho de Alma em si mesma e numa cultura em que, afinal, não corresponde ao seu idealismo. Não que uma mudança não se transcorra: ela se torna um anjo aos olhos de outros.

Nooteboom muda o tom e o fluxo da escrita várias vezes. Da primeira para a terceira pessoa; do presente ao passado e novamente ao presente; de uma ponta do planeta à outra; da concretude à subjetividade. As alterações estruturais enriquecem e tornam o texto mais envolvente, transmitindo com maior precisão o sentimento que o permeia: a vida é imprevisível, feita de desencontros, caminhos errados e mal-entendidos.  Nada se molda às nossas expectativas – ao contrário, as crenças precisam ser refeitas a partir do que vamos encontrando a cada curva. Clichês têm validade limitada e cedem frente à realidade crua.

O próprio ato da escrita e suas decorrências são objeto de análise de Nooteboom. Como a crítica literária, profissão a que se dedica Erik Zondag, personagem da segunda metade do livro.

Paraíso Perdido consegue ser leve e melancólico a um só tempo. Ao leitor, cabe fugir à tentação de racionalizar os meandros da história – melhor é senti-la, perdendo-se na sua fluidez.

_alguns trechos do livro

“Tornei-me inabordável, soberana. Se fosse um instrumento musical, produziria a mais bela das músicas. Sei que não posso dizer nada dessas coisas a quem quer que seja, mas juro que é verdade. Pela primeira vez na vida entendi o que queriam dizer na Idade Média quando falavam da harmonia das esferas. Estou fora, e não apenas vejo as estrelas, também as ouço.”

“Nesse mundo tudo se dá ao mesmo tempo: poesia, a maneira integral como vivem; é muito sedutor para as pessoas que vêm de algum lugar onde quase tudo está errado. A conseqüência é que tudo, ou quase tudo, se aniquila. Não é isso o que todo mundo vem buscando desde sempre, o paraíso perdido?”



Paraíso Perdido
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por Cees Nooteboom
Companhia das Letras
153 págs.
$32



Lucia Freitas  -  São Paulo  -  06/08/2008 ~ 18:35
OXI! Prazer encontrar os textos deliciosos da Lu Monte aqui. Me deu uma vontade gigante de ler este. Vai para a lista de futuras aquisições. bj

 
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