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Esperando Tom Waits
Carlos Careqa realiza pequena-obra prima com versões do ídolo por Jorge Rocha
No encarte de Pesadelo na Discoteca, da banda carioca Zumbi do Mato, o vocalista Löis Lancaster vislumbrava um futuro onde o estilo de cantar de Tom Waits, que era ouvido com ressalvas pelos ocidentais, acabaria agradando os servos do Islã. Carlos Careqa talvez não queira chegar a este ponto, mas é indiscutível que À espera de Tom acertou em cheio os fãs de Tom Waits, costumeiramente viscerais quando se trata de defender o universo idiossincrático deste. Um exemplo: se isso não tivesse acontecido, eu não estaria agora, escrevendo estas palavras a respeito desta homenagem realizada por um artista ímpar para outro. Ahá! Careqa se diz estudioso da obra de Tom Waits e este CD é a prova de que devemos mesmo confiar completamente nessa afirmação. Gravado em 2007, À espera de Tom é o que se costuma chamar de pequena obra-prima, exatamente porque cumpre a contento o que propõe: trair as composições de Tom Waits com a Língua Portuguesa. E uma traição poética deste porte não se realiza sem maestria, vide as recombinações de que Careqa é capaz, como transformar Chocolate Jesus em Guaraná Jesus, mantendo o ar de deboche tomwaitsiano, assim como sua voz rouca, sabendo trabalhar com os arquétipos de personalidade que este músico cunhou ao longo de sua carreira, adicionando a estes o seu próprio jeito. Garota de Guarulhos [Jersey Girl], cantada com a voz natural de Careqa, escapa incólume de destoar das demais. Apresentada por Careqa na última Virada Cultural, em São Paulo, depois de Guaraná Jesus, serviu para que ele fizesse uma brincadeira com o público, que não conseguia acompanhar o sha la la la sha la la la la la la, mantendo assim o espírito irreverente e maloqueiro que Tom Waits extravasa em alguns de seus shows. Também com sua voz, Careqa interpreta Tempo Time [Time], com uma singeleza da qual somente real tough guys são capazes de arquitetar, porque são capazes de saber o "tempo de amar". Cachorro Louco [Rain Dogs] e Num Trem de Metrô [Downtown Train] amalgamam-se com a originais, seja na condução da voz rouca que Carlos Careqa entoa, ou no olhar apaixonado de quem apega-se sobremaneira à própria sanidade - acima e apesar de tudo. E é simplesmente impossível não se pegar repetindo versos de Eu não quero crescer [I Don´t Wanna Grow Up] como "as pessoas vão virando coisas/que elas não querem ser/o importante é viver o agora" e "casar de novo, ser um vereador/é muita chata a vida de um doutor". Tom Waits já foi regravado soberbamente por musas como Diana Krall e Norah Jones, além de Scarlett Johansson. Marmanjos como Ramones e Rod Stewart também já se arriscaram neste mergulho rascante. Mas aos ouvidos de quem canta tal qual um drunk irish guy como eu - porque não poderia fazer isso de maneira diferente - nada soa tão verdadeiro e apaixonado como À Espera de Tom. Um brinde, Careqa, à sua coragem. fotos: divulgação *Jorge Rocha é jornalista, professor e vocalista da banda w.a.a.d.
bcardoso - Curitiba - 06/08/2008 ~ 14:49
Ale Carvalho - Niterói-RJ - 10/08/2008 ~ 08:27
ana laura - da redação - 11/08/2008 ~ 00:05
marcela bueno - BHz - 02/09/2009 ~ 13:30
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