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Alô!?

O dia em que escapei de me tornar um operador de telemarketing

por Bruno Reis
de Vila Velha - ES

[27/08/2008]

- Não, mãe, por favor. Não!
- Bruno, meu filho. Pelo amor de Deus: cresça.
E então foi assim que ela me convenceu a ir a uma entrevista de emprego. A vaga: operador de telemarketing. O salário: algo em torno de 500 reais. A minha idade: 18 anos.
Era um recente morador de Jardim da Penha, havia acabado de chegar de uma frustrante experiência no interior de São Paulo e tinha as tardes livres para assistir tevê, caminhar pelo bairro e fingir que estudava para alguma matéria do meu curso de publicidade. Chegava da faculdade antes de meio-dia, almoçava no Gandaias, um restaurante self-service de cinco reais o quilo, e depois dormia até a hora em que as costas reclamassem do sofá quente e grudento. Minha principal diversão durante a semana era esperar pelas quartas-feiras, quando ia assistir com meu primo aos jogos do Flamengo no Zé Pilim, tomando Brahma gelada e vendo as cocotinhas passeando nos corredores formados pelas mesas vermelhas. Era uma vida perfeita, e eu queria muito continuar assim.

Mas a pressão monetária e familiar fez com que eu olhasse para o espelho e visse um homem no lugar daquele moleque gorducho e com cara de bebê. Ao lado desse homem, uma carabina de dois canos mirava sua cabeça, repetindo insistentemente "Vai trabalhar! Vai trabalhar! Vai trabalhar!". Aquele mantra estava me alcançando. Indicado por uma tia, fui em uma tarde horripilantemente quente ao local da entrevista. Vesti calças compridas às duas da tarde, penteei o cabelo, coloquei uma camisa de botão e catei no quarto o currículo, impresso mais cedo na faculdade. Tomei um ônibus - aliás, dois! - e fui até os últimos metros quadrados de Vila Velha para dar de cara com a sofrida experiência.

A viagem foi longa. Mais de uma hora depois, cheguei ao local com marcas de suor espalhadas pela camisa e as bochechas avermelhadas pelo calor. Entrei em uma sala com ar-condicionado, dei o meu nome, ganhei uma senha e a informação de que todas aquelas trinta e quatro pessoas sentadas ali eram meus concorrentes. "Mas ainda faltam três para chegar", avisou a simpática atendente, e vi alguma ironia no sorriso que ela exibiu logo depois. Não sei se quis dizer que estava feliz por não ter que enfrentar tantos concorrentes ou se achou graça na cara que provavelmente fiz depois de saber que, além de ser obrigado a me tornar um operador de telemarketing, ainda precisaria vencer uma competição contra trinta e sete pessoas que queriam e precisavam do emprego muito mais do que eu. Logo eu, que nunca fui muito de ganhar, como diria o Camelo. "Meu filho, cresça", era minha mãe soprando na minha consciência.

Após oito copos d'água e quase vinte pessoas chamadas, finalmente era a minha vez de ser entrevistado. Um senhor imenso, portando alguns poucos cabelos brancos e uma vistosa testa vermelha, me convidou a entrar na sala. Levantou de uma pilha de papéis o meu currículo, onde constava exatamente o meu nome, endereço, telefone, período cursado na faculdade e habilidades com línguas estrangeiras - nada mais que isso. Nunca havia trabalhado. Não curtia nem quando, por volta dos seis anos de idade, meu pai me levava ao banco em que trabalhava para ficar carimbando papéis à toa enquanto ele terminava de fechar as contas antes de irmos buscar a minha mãe. Preferia correr pelos corredores entapetados, berrando alguma coisa esquisita, até tomar esporro e voltar para a burocrática brincadeira de carimbar papéis. Portanto, trabalhar, pra mim, nem de brincadeira. E aquele senhor fazia questão de reler o meu currículo, tão vazio quanto minhas expectativas.

Algumas perguntas imbecis e respostas idiotas depois, fui mandado para uma sala onde estavam cerca de 15 outros candidatos que passaram da primeira seletiva. A placa na porta indicava que ali era uma espécie de sala de tortura: "Dinâmica de Grupo". Respirei fundo, amaldiçoei [com todo respeito] a minha mãe mais algumas vezes e dei alguns passos adentrando a sala, onde me entregaram uma folha de papel e uma caneta. Uma mulher, talvez beirando os quarenta e poucos anos, iniciou uma breve explicação das atividades. Aterrorizado, eu não conseguia escutar o que ela dizia. O medo do desconhecido, o significado das palavras "dinâmica" e "grupo", a cara dos meus concorrentes, tudo isso me deixava apavorado. Como eu já previa, devíamos nos expor ali. Dois candidatos se sentariam um de costas para o outro, cada qual interpretando os personagens "atendente" e "cliente". A vergonha alheia era tanta que, mesmo concorrendo a um emprego, não conseguia levar aquilo a sério. E o destino, vingativo que só ele, quis que eu fosse escolhido como o primeiro "atendente" da dinâmica.

De costas para mim, uma garota se arrumava na cadeira, e eu observava seus movimentos pelas sombras esquisitas que se espalhavam pelo chão. Ao nosso lado, a instrutora deu a ordem e iniciamos nosso contato comercial. A "cliente" foi a primeira a se adiantar.
- Alô?
- Alô, eu respondi.
Em seguida, fiquei em silêncio. Todos me olharam. Eu simplesmente não tinha a menor idéia do que precisava fazer, só queria não estar ali. Pensei no calçadão de Camburi, nas meninas que caminhavam de shortinho todas as tardes e o quanto eu sentiria falta disso se tivesse que ficar preso a essa armação de microfone e fone de ouvido.
- Bruno, você precisa vender o seu produto. Fale alguma coisa - disse a instrutora, tentando esconder sua impaciência.
- Que produto?
- Não sei, qualquer coisa. Venda qualquer coisa.
- Hum, ok. A senhora gostaria de comprar um ventilador?
Alguém bufou do meu lado. Era a instrutora, fula. Seu cabelo loiro desgrenhado parecia em polvorosa enquanto ela tentava convencê-lo a ficar alojado atrás da orelha, sem sucesso. Eu me sentia um burro, idiota, responsável pela revolta capilar da jovem senhora, fazendo com que dezenas de pessoas perdessem seu tempo naquela babaquice. Inclusive eu.
- Não, obrigada. E não me ligue mais - disse a menina que roçava as costas nas minhas.
- Beleza. Falou! Tu-tu-tu-tu - imitar um telefone desligado era a tentativa de me livrar daquilo o mais rápido possível. Era patética, eu sei, mas na hora parecia perfeita.
Não colou:
- Bruno, ligue mais uma vez. Seja insistente, não deixe espaço para ela retrucar antes que você venda o seu produto. Vamos lá.
De saco cheio, resolvi atender ao pedido daquela senhora e dar mais uma chance à sorte.
- Alô, quem fala?
- Jussara. Quer falar com quem?
- Com você mesmo. Quer comprar um ventilador? É Tufão. Tá barato, aproveita, promoção - eu não sei de onde isso veio, muito menos onde daria. Mas achei que a minha impostação de voz poderia salvar tudo. E eu queria mesmo ser salvo?
- Não, obrigada. Durmo de ar-condicionado.
- Dá mole, gasta energia demais. Se eu fosse você... - e fui interrompido. A instrutora mandou parar tudo e colocou o Vágner, um baixinho com a cara queimada de quem acabou de sair da praia, no meu lugar. Todos os olhos estavam em cima de mim, uns riam, outros pareciam ter acabado de ver um fantasma pairando sobre aquele diálogo ridículo. Levantei-me da cadeira e fui sentar no banquinho lá de trás.

Todos os candidatos passariam pela mesma provação nas próximas horas. Todos. Claro que fui o pior deles. Segundo a instrutora, eu parecia estar falando com meus "bróders". Palavras dela. E não estava errada: eu realmente desejava estar em qualquer outro lugar, menos ali. Não tinha a menor vocação para vendedor insistente, não queria perturbar ninguém no sossego do seu lar por 500 reais mensais, mais a perda da minha liberdade, os quatro ônibus ida-e-volta diários e a exclusão social à qual precisaria me submeter para me enquadrar nos horários esdrúxulos que incluíam trabalhar por quatro horas seguidas na tarde de sábado. Só queria sair correndo, e foi o que fiz. Acabada a dinâmica, fomos mandados de volta para a primeira sala, a de espera, onde os selecionados, e apenas eles, receberiam um aviso de uma nova data em que precisariam comparecer ali novamente. Eu, claro, nem esperei que não chamassem meu nome. Fui direto para o ponto aguardar o ônibus.

No caminho para casa, o alívio de não ter sido escolhido fazia com que tudo parecesse ter novo sentido. As pessoas no ônibus parcialmente lotado exalavam um perfume rebuscado, a brisa da beira-mar estava mais fresca, o cheiro da maresia não em enjoava mais - era o aroma da liberdade. As meninas bonitas nas ruas pareciam ainda mais bonitas, e até as feias ganharam um charme especial. Desci do ônibus na orla, comprei uma água de coco e me sentei no banquinho de frente para o mar pela primeira vez desde que tinha chegado na cidade. Pensando entre um gole d'água e outro, cheguei à conclusão de que minha mãe tinha razão: crescer era importante. Mas naquele dia, resolvi deixar isso tudo para mais tarde. E não me arrependo nem um pouco. 

*Bruno Reis é publicitário por formação, escritor por paixão e teimoso por falta de opção. Não tem nada contra a profissão de operador de telemarketing, mas tinha outras prioridades na época. Ainda bem.



Roberta  -  27/08/2008 ~ 10:10
morri de rir imaginando os detalhes!

Elisa  -  27/08/2008 ~ 15:13
historinha engraçada, ri um monte. beijos

Mônica Guerra  -  Vitória  -  27/08/2008 ~ 19:49
Gostei!Texto muito bem corrido, muito bem escrito!Parabéns!!Ahh a historia é muito legal tb!! =)

carol  -  são paulo, por uns dias..  -  27/08/2008 ~ 21:57
e hj em dia ta aí..redator publicitário, colunista, um escritor e tanto.. sorte nossa que deu tudo errado naquela época..=)

Vinicius (broda)  -  27/08/2008 ~ 23:26
Hahaha... Ri demais!

gilberto  -  vila velha-es  -  28/08/2008 ~ 14:15
Quer dizer que vc FUGIU do seu primeiro trabalho, quem diria que só saberíamos a verdade atraves de seus contos. Deixa sua mãe ler isso. Foi realista por que sei que foi verdade. Um abração.-

Ann  -  caxu  -  02/09/2008 ~ 10:43
Amei! Essa situação me fez lembras das minhas mal sucessedidas entrevistas de empregos em BH. Perguntas idiotas, pessoas esquisitas... eu me segurando para não rir. Não passei em nenhuma, claro. Definitivamente, não nasci pra cuidar de marmanjo...

Flávia  -  Vitória  -  11/09/2008 ~ 14:57
Muito bom! Morri de rir aqui. Ainda bem que você não tem a menor vocação para operador de telemarketing :)

 
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