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Alô!?
O dia em que escapei de me tornar um operador de telemarketing por Bruno Reis
- Não, mãe, por favor. Não! Mas a pressão monetária e familiar fez com que eu olhasse para o espelho e visse um homem no lugar daquele moleque gorducho e com cara de bebê. Ao lado desse homem, uma carabina de dois canos mirava sua cabeça, repetindo insistentemente "Vai trabalhar! Vai trabalhar! Vai trabalhar!". Aquele mantra estava me alcançando. Indicado por uma tia, fui em uma tarde horripilantemente quente ao local da entrevista. Vesti calças compridas às duas da tarde, penteei o cabelo, coloquei uma camisa de botão e catei no quarto o currículo, impresso mais cedo na faculdade. Tomei um ônibus - aliás, dois! - e fui até os últimos metros quadrados de Vila Velha para dar de cara com a sofrida experiência. A viagem foi longa. Mais de uma hora depois, cheguei ao local com marcas de suor espalhadas pela camisa e as bochechas avermelhadas pelo calor. Entrei em uma sala com ar-condicionado, dei o meu nome, ganhei uma senha e a informação de que todas aquelas trinta e quatro pessoas sentadas ali eram meus concorrentes. "Mas ainda faltam três para chegar", avisou a simpática atendente, e vi alguma ironia no sorriso que ela exibiu logo depois. Não sei se quis dizer que estava feliz por não ter que enfrentar tantos concorrentes ou se achou graça na cara que provavelmente fiz depois de saber que, além de ser obrigado a me tornar um operador de telemarketing, ainda precisaria vencer uma competição contra trinta e sete pessoas que queriam e precisavam do emprego muito mais do que eu. Logo eu, que nunca fui muito de ganhar, como diria o Camelo. "Meu filho, cresça", era minha mãe soprando na minha consciência. Após oito copos d'água e quase vinte pessoas chamadas, finalmente era a minha vez de ser entrevistado. Um senhor imenso, portando alguns poucos cabelos brancos e uma vistosa testa vermelha, me convidou a entrar na sala. Levantou de uma pilha de papéis o meu currículo, onde constava exatamente o meu nome, endereço, telefone, período cursado na faculdade e habilidades com línguas estrangeiras - nada mais que isso. Nunca havia trabalhado. Não curtia nem quando, por volta dos seis anos de idade, meu pai me levava ao banco em que trabalhava para ficar carimbando papéis à toa enquanto ele terminava de fechar as contas antes de irmos buscar a minha mãe. Preferia correr pelos corredores entapetados, berrando alguma coisa esquisita, até tomar esporro e voltar para a burocrática brincadeira de carimbar papéis. Portanto, trabalhar, pra mim, nem de brincadeira. E aquele senhor fazia questão de reler o meu currículo, tão vazio quanto minhas expectativas. Algumas perguntas imbecis e respostas idiotas depois, fui mandado para uma sala onde estavam cerca de 15 outros candidatos que passaram da primeira seletiva. A placa na porta indicava que ali era uma espécie de sala de tortura: "Dinâmica de Grupo". Respirei fundo, amaldiçoei [com todo respeito] a minha mãe mais algumas vezes e dei alguns passos adentrando a sala, onde me entregaram uma folha de papel e uma caneta. Uma mulher, talvez beirando os quarenta e poucos anos, iniciou uma breve explicação das atividades. Aterrorizado, eu não conseguia escutar o que ela dizia. O medo do desconhecido, o significado das palavras "dinâmica" e "grupo", a cara dos meus concorrentes, tudo isso me deixava apavorado. Como eu já previa, devíamos nos expor ali. Dois candidatos se sentariam um de costas para o outro, cada qual interpretando os personagens "atendente" e "cliente". A vergonha alheia era tanta que, mesmo concorrendo a um emprego, não conseguia levar aquilo a sério. E o destino, vingativo que só ele, quis que eu fosse escolhido como o primeiro "atendente" da dinâmica. De costas para mim, uma garota se arrumava na cadeira, e eu observava seus movimentos pelas sombras esquisitas que se espalhavam pelo chão. Ao nosso lado, a instrutora deu a ordem e iniciamos nosso contato comercial. A "cliente" foi a primeira a se adiantar. Todos os candidatos passariam pela mesma provação nas próximas horas. Todos. Claro que fui o pior deles. Segundo a instrutora, eu parecia estar falando com meus "bróders". Palavras dela. E não estava errada: eu realmente desejava estar em qualquer outro lugar, menos ali. Não tinha a menor vocação para vendedor insistente, não queria perturbar ninguém no sossego do seu lar por 500 reais mensais, mais a perda da minha liberdade, os quatro ônibus ida-e-volta diários e a exclusão social à qual precisaria me submeter para me enquadrar nos horários esdrúxulos que incluíam trabalhar por quatro horas seguidas na tarde de sábado. Só queria sair correndo, e foi o que fiz. Acabada a dinâmica, fomos mandados de volta para a primeira sala, a de espera, onde os selecionados, e apenas eles, receberiam um aviso de uma nova data em que precisariam comparecer ali novamente. Eu, claro, nem esperei que não chamassem meu nome. Fui direto para o ponto aguardar o ônibus. No caminho para casa, o alívio de não ter sido escolhido fazia com que tudo parecesse ter novo sentido. As pessoas no ônibus parcialmente lotado exalavam um perfume rebuscado, a brisa da beira-mar estava mais fresca, o cheiro da maresia não em enjoava mais - era o aroma da liberdade. As meninas bonitas nas ruas pareciam ainda mais bonitas, e até as feias ganharam um charme especial. Desci do ônibus na orla, comprei uma água de coco e me sentei no banquinho de frente para o mar pela primeira vez desde que tinha chegado na cidade. Pensando entre um gole d'água e outro, cheguei à conclusão de que minha mãe tinha razão: crescer era importante. Mas naquele dia, resolvi deixar isso tudo para mais tarde. E não me arrependo nem um pouco. *Bruno Reis é publicitário por formação, escritor por paixão e teimoso por falta de opção. Não tem nada contra a profissão de operador de telemarketing, mas tinha outras prioridades na época. Ainda bem.
Roberta - 27/08/2008 ~ 10:10
Elisa - 27/08/2008 ~ 15:13
Mônica Guerra - Vitória - 27/08/2008 ~ 19:49
carol - são paulo, por uns dias.. - 27/08/2008 ~ 21:57
Vinicius (broda) - 27/08/2008 ~ 23:26
gilberto - vila velha-es - 28/08/2008 ~ 14:15
Ann - caxu - 02/09/2008 ~ 10:43
Flávia - Vitória - 11/09/2008 ~ 14:57
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