_participe!
 

cinema  |  comportamento  |  geral  |  literatura  | moda  |   música  |  tv viagem  || blog do editor  |  colunas  |  expediente

 
Speechless

Eu vou embora e outras palavras incompreensíveis

por Egídio La Pasta Jr.
do Rio

[14/10/2008]

Você vai entrar por aquela porta em menos de duas horas. Em menos de duas horas, eu vou sentar no sofá e antes de sentar no sofá vermelho, eu vou te oferecer uma taça de vinho. E você vai aceitar porque eu sei que você jamais recusou uma taça de vinho. Eu vou te dizer o quanto eu gosto de você e vou tentar evitar falar a palavra amor. Eu vou tentar e se eu conseguir evitar, pode ser que você me odeie menos e nem pense em me dizer. Talvez você apenas se levante e vá embora de maneira educada e gentil. Você sempre me surpreende e eu já desisti de tentar prever suas reações muito tempo antes de pensar em te deixar.

Você vai chegar bem vestida e perfumada. Provavelmente curiosa, mas nem por isso menos segura. Você vai passar por mim e ao passar, o seu perfume vai iluminar todos os pontos sem luz e eu vou pensar 'uau'. Você me deixa sem palavras e refém, junto os cacos do que ainda me resta e assassino a grafia se te escrevo, embaralho a concordância se te falo, eu ignoro o significado quando te amo. Você, apesar de me deixar da maneira que deixa, de ter o melhor abraço que eu jamais vou ter, de ser a mulher por trás do homem patético, hoje há de saber que eu vou te deixar.

Você ao entrar, vai desarticular todo e qualquer pensamento arquitetado. Você desfaz os meus ensaios com apenas um movimento. Você destrói as minhas pilhas de idéias organizadas e desconstrói todo castelo de papel que eu diversas vezes ensaiei construir. Você me causa a sensação de que a vida não faz sentido. Você me causa sensações, entre elas, a mais potente, de que a vida nunca fez qualquer sentido. Você me ensina todas as noites e todos os dias que não há qualquer sombra de sentido em ninguém. Em nada. Talvez na natureza. Nunca em qualquer um de nós. Por isso eu me desafio e vou te deixar.

Eu vou porque a tua beleza descortina a minha imensa feiúra. Eu vou porque teu perfume me enfeitiça docilmente. Porque ainda existe algum sentido em mim antes do afogamento. Porque outras mulheres e outros homens eu quero amar. Porque por outros homens e outras mulheres eu quero ser amado. Porque o amor não se basta. Porque só o amor não é o bastante. Porque você nunca achou que fosse amor. Porque eu nunca soube amar. Porque eu tenho essa necessidade italiana de querer marcar o território. Porque eu não passo de um cachorro vagabundo. Porque você confunde educação com frieza e eu tomo ciência todos os dias que viver é em voz alta. Porque um milhão de coisas. Porque eu jamais daria nome às coisas porque eu nem sei delas a metade. Porque esse papo não vai dar em lugar algum, a não ser em apartamentos distintos, objetos separados, um ou dois porres para deixar de lembrar.

Você vai chegar. E eu não vou saber o que te dizer. De todas as tentativas que eu fizer, uma delas você há de compreender.

A língua portuguesa nunca me foi tão complicada.

*Egídio La Pasta Jr. é, entre outras mil, alguém que teve o computador invadido essa semana. Depois de quase enlouquecer, respirou fundo e escreveu esse texto depois do filme Fatal, de Isabel Coixet que é interessante, se ignorarmos o livro.



vívian paraíso  -  Recife  -  15/10/2008 ~ 07:32
Tudo pronto, tudo "ensaiado" e na hora se desfaz porque, por mais que se tente, é impossível ter certeza da reação do outro. Parabéns Egídio, beeijos.

brenda  -  sjcampos  -  15/10/2008 ~ 11:53
te acompanho no porre. e na ressaca que ha de chegar.

ronnadias  -  rio de janeiro  -  15/10/2008 ~ 14:20
Não temos o controle da situação nunca, eu mesma pensei que não faltava mais nada... faltava ler vc, para confirmar que agora sim, não falta mais nada.

Gabriel Louback  -  SP  -  10/12/2008 ~ 00:09
seus contos [se é que são contos], são reais em cada sentença [se é que são reais].

Erica Hans  -  Sampa  -  12/12/2008 ~ 19:18
Parei por minutos fitando esta frase: e eu tomo ciência todos os dias que viver é em voz alta. O texto todo está irresistível. Pena que tem fim. Como o amor.

Jeff Paiva  -  São Paulo  -  15/12/2008 ~ 00:11
Teus textos parecem ser escritos com o conhecimento total da mente, história e sentimentos do leitor. De cada um deles. Te agradeço, Egídio, por trazer a um escriba como eu a luz das papavas certas e a tradução dos sentimentos que prendi e reprimi. Porque o amor não se basta. Porque tentei deixar de lembrar... e ela voltou à mina mente, à minha vida. Depois de te ler.

 
© Copyright Revista Paradoxo 2003~2008. Todos os direitos reservados