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Speechless
Eu vou embora e outras palavras incompreensíveis por Egídio La Pasta Jr.
Você vai entrar por aquela porta em menos de duas horas. Em menos de duas horas, eu vou sentar no sofá e antes de sentar no sofá vermelho, eu vou te oferecer uma taça de vinho. E você vai aceitar porque eu sei que você jamais recusou uma taça de vinho. Eu vou te dizer o quanto eu gosto de você e vou tentar evitar falar a palavra amor. Eu vou tentar e se eu conseguir evitar, pode ser que você me odeie menos e nem pense em me dizer. Talvez você apenas se levante e vá embora de maneira educada e gentil. Você sempre me surpreende e eu já desisti de tentar prever suas reações muito tempo antes de pensar em te deixar. Você vai chegar bem vestida e perfumada. Provavelmente curiosa, mas nem por isso menos segura. Você vai passar por mim e ao passar, o seu perfume vai iluminar todos os pontos sem luz e eu vou pensar 'uau'. Você me deixa sem palavras e refém, junto os cacos do que ainda me resta e assassino a grafia se te escrevo, embaralho a concordância se te falo, eu ignoro o significado quando te amo. Você, apesar de me deixar da maneira que deixa, de ter o melhor abraço que eu jamais vou ter, de ser a mulher por trás do homem patético, hoje há de saber que eu vou te deixar. Você ao entrar, vai desarticular todo e qualquer pensamento arquitetado. Você desfaz os meus ensaios com apenas um movimento. Você destrói as minhas pilhas de idéias organizadas e desconstrói todo castelo de papel que eu diversas vezes ensaiei construir. Você me causa a sensação de que a vida não faz sentido. Você me causa sensações, entre elas, a mais potente, de que a vida nunca fez qualquer sentido. Você me ensina todas as noites e todos os dias que não há qualquer sombra de sentido em ninguém. Em nada. Talvez na natureza. Nunca em qualquer um de nós. Por isso eu me desafio e vou te deixar. Eu vou porque a tua beleza descortina a minha imensa feiúra. Eu vou porque teu perfume me enfeitiça docilmente. Porque ainda existe algum sentido em mim antes do afogamento. Porque outras mulheres e outros homens eu quero amar. Porque por outros homens e outras mulheres eu quero ser amado. Porque o amor não se basta. Porque só o amor não é o bastante. Porque você nunca achou que fosse amor. Porque eu nunca soube amar. Porque eu tenho essa necessidade italiana de querer marcar o território. Porque eu não passo de um cachorro vagabundo. Porque você confunde educação com frieza e eu tomo ciência todos os dias que viver é em voz alta. Porque um milhão de coisas. Porque eu jamais daria nome às coisas porque eu nem sei delas a metade. Porque esse papo não vai dar em lugar algum, a não ser em apartamentos distintos, objetos separados, um ou dois porres para deixar de lembrar. Você vai chegar. E eu não vou saber o que te dizer. De todas as tentativas que eu fizer, uma delas você há de compreender. A língua portuguesa nunca me foi tão complicada. *Egídio La Pasta Jr. é, entre outras mil, alguém que teve o computador invadido essa semana. Depois de quase enlouquecer, respirou fundo e escreveu esse texto depois do filme Fatal, de Isabel Coixet que é interessante, se ignorarmos o livro.
vívian paraíso - Recife - 15/10/2008 ~ 07:32
brenda - sjcampos - 15/10/2008 ~ 11:53
ronnadias - rio de janeiro - 15/10/2008 ~ 14:20
Gabriel Louback - SP - 10/12/2008 ~ 00:09
Erica Hans - Sampa - 12/12/2008 ~ 19:18
Jeff Paiva - São Paulo - 15/12/2008 ~ 00:11
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