Tudo parece estar ali em fina harmonia. Os olhos, a boca, os cabelos, as coisas combinam perfeitamente com a descrição de "mulher dos meus sonhos" que um dia impus a mim mesmo de forma descarada, desgovernada. Se eu parar para analisar com frieza, está ali o meu destino, sentado do outro lado da mesa, encostada em uma cadeira bamba de madeira escura. Os olhos não me observam, me assaltam; a boca não conversa comigo, me devora a cada palavra; os cabelos não me agradam, me encantam, me hipnotizam nos movimentos hábeis que o vento realiza na minha frente. Tem tudo para ser ela.
Mas não é. Desesperado, me pergunto quase diariamente qual é o meu problema, o que estou tentando evitar, o que estou tentando buscar, o que há de errado comigo e, principalmente, o que há de errado com ela? Não sei, desconheço por completo a origem de toda minha ignorância, da minha petulância. Aparentemente, há uma pessoa com os predicados que eu sempre desejei pronta para me fazer feliz, para me tirar de uma pasmaceira diária, da rotina ignóbil, do auto-descaso. Há vida inteligente na Terra. E mais: inteligente e bonita, e sexy, e interessante sob vários aspectos. Há a possibilidade real de felicidade, ela que é caçada por mim de forma tão implacável. E, no final, eu não faço nada.
A vida parece querer encaixar os fatos que fazem questão de se espalhar. Volta e meia nos esbarramos pelos bares da vida. Solteiros e esperando pouco do que vem por aí, nos olhamos por minutos a fio. Paramos, nos encontramos e conversamos muito, sem parar, se preciso por horas e horas sem desgrudar os olhos, as mãos eventualmente se tocando, os cabelos massageados involuntariamente aqui e ali. É o corpo dando a aprovação, é a vida empurrando os dois um a favor do outro, sem medo, corajosamente. Mas no final, na hora do "vamos ver", eu digo não. Refugo, desleixado, e saio como se não fosse comigo, como se não percebesse que é apenas e tão somente a minha vontade que faz com que ela se afaste mais a cada dia.
Procuro relação nas coisas, motivos para que eu fuja na maior cara de pau sem enfrentar a minha própria dor, os pensamentos que seguem no encalço de cada desistência. Nada além de covardia é encontrado. Nada além de justificativas torpes, de desculpas esfarrapadas. Medo e falta de auto-confiança já me passaram pela cabeça, mas nem mesmo eles eu consigo aceitar como motivo. Ela soa como a música perfeita a ser ouvida nesse momento, enquanto eu pareço um surdo parado em frente a um aparelho de som de última geração tocando "Because" dos Beatles no último volume - completamente inútil frente a uma maravilha que deveria ser minha, mas não é.
De mim, ela recebe apenas o desprezo. E eu não sei aonde estou com a cabeça quando faço isso. A felicidade anda se jogando no meu colo, enquanto me esquivo com uma habilidade incomum. Tudo parece estar em fina harmonia. Quem destoa sou eu.
*Bruno Reis é publicitário por formação, escritor por paixão e teimoso por falta de opção. Pode estar perdendo, neste exato momento, uma grande chance de ser feliz.