
Abrem-se as cortinas do Coliseu dos Recreios em Lisboa. São 22 horas e Ney Matogrosso regressa aos palcos portugueses com o show Inclassificáveis. Desta vez, menos comportado e mais esfuziante, sob o tema “A ousadia está de volta”. Não só voltou a irreverência como também a sensualidade do sexagenário, para dar aos lisboetas as últimas saudações ao verão português.
Um sofá de dois lugares coberto por muitos tecidos brilhantes, luzes que desafiam o arco-íris e um macacão prateado de tule elástico coberto por milhares de lantejoulas que delineia um corpo erótico - são as primeiras imagens que Ney oferece ao público comportado da capital portuguesa.
Empostado com o corpo numa pose não menos elegante que as que se vê nas capas de revistas sensuais, Ney abre o show o com O Tempo Não Pára, de Cazuza. O olhar da platéia acompanha a euforia das cores, dos brilhos, do cenário e dá música. Uma reação isolada de uma fã à frente de Ney aponta que algo mais há de acontecer naquela noite. Impossível seria resistir a um repertório ácido e explosivo que reúneCazuza, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Frejat, Marcelo Camelo, Chico Buarque e outros.
As vistas não se cansam de ver luzes explodirem no corpo prateado de Ney e nos figurinos de Ocimar Versolato nem os ouvidos de ouvir o desabafo do som provocador de cada música que abre caminho para os atos apoteóticos que compõem a performance do cantor. Ney despe-se diante do público, como em um strip-tease alucinante e movimentos de alusões eróticas, livra-se do tule esvoaçante para dar lugar a uma “segunda pele” com tatuagens indígenas. Não esconde o deboche ao apresentar uma falsa nudez, que incita a platéia ao movimento de descoberta dos seus segredos genitais. Um tapa-sexo prateado esconde as surpresas, mas não retira do público o delírio e o desejo pelo cantor.
Sem palavras faladas, alucina o público com doses de mistério sobre o seu corpo e com o rock bem pontuado pela nova banda que o acompanha, liderada pelo diretor musical Emilio Carrera [ex-Secos e Molhados]. O som descreve uma sonoridade pesada, incisiva, violenta, marcada por repertório contra o caos social. Todos estão hipnotizados. Os passinhos e rebolados de Ney Matogrosso são acompanhados sistematicamente por cabeças que giram em sincronia com seus movimentos.
Ney abre a boca e canta Por que a Gente é Assim, de Cazuza, Ezequiel Neves e Frejat, e desce do palco. É apalpado, beijado e reverenciado. O público que está sentado à frente de Ney, tem idade, em sua maioria, entre 40 a 70 anos. Ney rebola nos corredores do Coliseu e coloca a ditadura de Salazar para fora do teatro. Uma fã levanta-se. Apresenta um saco plástico ao alto e Ney chega perto. Abre o saco e joga pétalas de rosas vermelhas sob a cabeça do cantor. Ney rebola mais. Quer mais uma dose, é claro, mas não se rende ao paparico.
O público português está livre no Coliseu dos Recreios. Homens e mulheres soltam-se das cadeiras, cedem à provocação e, como num culto religioso, livram-se dos protocolos dos grandes concertos europeus, do estado pudico, comportado e católico para renderem-se à rebeldia de Ney. A platéia está em gozo. Embriagada pelo hipnotismo e atrevimento do cantor, deixa as poltronas vermelhas para juntar-se à frente do palco. Mãos para cima e corpo livre. São todos um pouco “Ney Matogrosso”: portugueses maduros, mais sensuais, alforriados e sem vergonha.
O show está no fim. Divino Maravilhoso, de Gil e Caetano, encerra Inclassificáveis. Ney Matogrosso sai do palco. Não diz “boa noite” nem “obrigado”. Quem deve agradecer é o público português.
foto: divulgação