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Racional versus emocional
Ou o jogo de idas e vindas que o destino adora fazer por Bruno Reis
Era engraçado observar como a vida fazia um jogo de idas e voltas com ele. Tinha os pés no mundo e a cabeça nas nuvens, andava pra lá e pra cá o dia todo há meses, sem parar nem cogitar uma volta para casa. Já havia cruzado todo o continente norte americano, assim como o sul americano, e agora rumava para a Europa. Dedicava todas as suas forças e atenções para isso com o objetivo único de esquecer o que muito em breve ele perceberia ser inesquecível. Outros países e outras culturas o esperavam, mas por dentro nada mudaria. No começo, ele havia tentado amá-la de qualquer jeito. Começara o namoro pouco à vontade, sem precisar se era ou não o que ele procurava em uma mulher. Foi necessário um esforço tremendo para não acabar com tudo rapidamente. Pela primeira vez na vida, permitiu-se ir além do que o seu lado racional mandava. E agora se arrependia disso. Se o lado ganha o nome de racional é porque raciocina, coisa que ele resolveu não fazer por um tempo e agora paga o pato todos os dias, a cada novo país que desbrava, a cada nova menina estrangeira que conhece seus aposentos, suas intimidades e, logo depois, o seu desprezo real e indisfarçável. Preparava-se para pisar pela primeira vez na Inglaterra. No caminho, o vôo cheio de turbulências fez com que ele se lembrasse das viagens de carro para o sítio do tio, a estrada esburacada que fazia o carro tremer, pular, testando a suspensão do veículo ao último grau. Ao seu lado, ela ria alto a cada pancada, os buracos se multiplicavam e ela ria ainda mais, divertindo-se com os xingamentos do namorado-motorista estressado. Cada chacoalhada do avião trazia uma vontade de rir quase irresistível, mas ele se segurava, olhava pela janelinha o tempo fechado e as nuvens negras emparedadas do lado de fora. Ao chegar - também pela primeira vez - em solo alemão, recebeu dela um e-mail carinhoso, onde confessava sentir saudades, um pouco de arrependimento pelo fim do relacionamento e desejava sorte na viagem. Depois de ler a mensagem alternando carinho e um rancor que não conseguia frear, lembrou que poucos meses antes estavam juntos naquele confortável cinema alternativo assistindo a um belo filme alemão, e discretamente se divertiam juntos com a forma como a língua era pronunciada, onde mesmo as declarações de amor soavam para eles como broncas homéricas. O jogo de idas e vindas funcionava mais uma vez. *Bruno Reis é publicitário por formação, escritor por paixão e teimoso por falta de opção. Vive diariamente a briga entre o racional e o emocional. E nunca há um vencedor.
monique - 05/11/2008 ~ 13:20
carol - 05/11/2008 ~ 21:08
Edu - cachoeiro - 05/11/2008 ~ 21:13
Larissa Dardengo - Cachoeiro de Itap. - 28/11/2008 ~ 00:06
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