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Racional versus emocional

Ou o jogo de idas e vindas que o destino adora fazer

por Bruno Reis
de Vila Velha - ES

[05/11/2008]

Era engraçado observar como a vida fazia um jogo de idas e voltas com ele. Tinha os pés no mundo e a cabeça nas nuvens, andava pra lá e pra cá o dia todo há meses, sem parar nem cogitar uma volta para casa. Já havia cruzado todo o continente norte americano, assim como o sul americano, e agora rumava para a Europa. Dedicava todas as suas forças e atenções para isso com o objetivo único de esquecer o que muito em breve ele perceberia ser inesquecível. Outros países e outras culturas o esperavam, mas por dentro nada mudaria. 

No começo, ele havia tentado amá-la de qualquer jeito. Começara o namoro pouco à vontade, sem precisar se era ou não o que ele procurava em uma mulher. Foi necessário um esforço tremendo para não acabar com tudo rapidamente. Pela primeira vez na vida, permitiu-se ir além do que o seu lado racional mandava. E agora se arrependia disso. Se o lado ganha o nome de racional é porque raciocina, coisa que ele resolveu não fazer por um tempo e agora paga o pato todos os dias, a cada novo país que desbrava, a cada nova menina estrangeira que conhece seus aposentos, suas intimidades e, logo depois, o seu desprezo real e indisfarçável. 

Preparava-se para pisar pela primeira vez na Inglaterra. No caminho, o vôo cheio de turbulências fez com que ele se lembrasse das viagens de carro para o sítio do tio, a estrada esburacada que fazia o carro tremer, pular, testando a suspensão do veículo ao último grau. Ao seu lado, ela ria alto a cada pancada, os buracos se multiplicavam e ela ria ainda mais, divertindo-se com os xingamentos do namorado-motorista estressado. Cada chacoalhada do avião trazia uma vontade de rir quase irresistível, mas ele se segurava, olhava pela janelinha o tempo fechado e as nuvens negras emparedadas do lado de fora. 

Ao chegar - também pela primeira vez - em solo alemão, recebeu dela um e-mail carinhoso, onde confessava sentir saudades, um pouco de arrependimento pelo fim do relacionamento e desejava sorte na viagem. Depois de ler a mensagem alternando carinho e um rancor que não conseguia frear, lembrou que poucos meses antes estavam juntos naquele confortável cinema alternativo assistindo a um belo filme alemão, e discretamente se divertiam juntos com a forma como a língua era pronunciada, onde mesmo as declarações de amor soavam para eles como broncas homéricas. O jogo de idas e vindas funcionava mais uma vez. 

Em seu contato inicial com Paris, recordou as tentativas dela como sua professora particular de francês, um bocado mal sucedidas. Ele teimava em continuar as aulas só porque vê-la falando com aquele sotaque era atraente demais e, invariavelmente, acabavam as aulas na cama. Na primeira troca de palavras com uma mulher na língua de Sartre teve de segurar as lágrimas. Foi nesse país que conseguiu sua primeira conquista européia, não por acaso uma francesa loira, de olhos negros poderosos, que se parecia bastante com a ex. Foram a um café tradicional da cidade, deram uma rápida passada em um museu e acabaram no hotel dele. Algumas horas depois, ela saía pela portaria rumo a sua casa, e nunca mais se veriam. 

Em uma passagem rápida pela Espanha recebeu um outro e-mail dela, desta vez ainda mais carinhoso. Minutos antes passara de carro pelo estádio de gutebol do Real Madrid, time com o qual ela costumava jogar contra ele, e sistematicamente perder, no videogame dos domingos intermináveis. Já eram lembranças demais, boas e ruins, idas e vindas. A insistência do destino fez com que desistisse de continuar sua peregrinação pelo velho mundo. Estava determinado a voltar para casa e enfrentar um recomeço que se desenhava desde quando terminaram, mas que nenhum dos dois tomava a dianteira com pulso firme.

Chegando em sua cidade, foi em casa deixar as malas e partiu de táxi direto para vê-la. Passaram dois dias sem sair de casa. No terceiro dia, brigaram como nunca antes havia acontecido. Ele então saiu de lá para nunca mais voltar. Uma semana depois, embarcava em um vôo rumo a Tóquio, onde cumpriria a primeira etapa de um reconhecimento geral do mundo oriental. De novo a vida impunha suas idas e vindas. Resignado, resolveu empreender para esquecê-la a mesma força que usara para começar a amá-la. Agora só o tempo diria se o racional conseguiria mais uma vez derrotar o emocional. 

 

*Bruno Reis é publicitário por formação, escritor por paixão e teimoso por falta de opção. Vive diariamente a briga entre o racional e o emocional. E nunca há um vencedor.



monique  -  05/11/2008 ~ 13:20
achei que combinava: Le verbe aimer est un des plus difficile à conjuguer: son passé n’est pas simple, son présent n’est qu’indicatif et son futur est toujours conditionnel - Jean Cocteau

carol  -  05/11/2008 ~ 21:08
enquanto não há vencedores, a gente vai sempre testando o limite entre os dois. bacana o texto! =)

Edu  -  cachoeiro  -  05/11/2008 ~ 21:13
Você e suas mulheres. O emocial sempre escolhendo as piores opções. Realmente tá na hora de deixar o racional mandar um pouco, e finalmente sair desse carma que te ronda a três anos. Tantas boas opções já foram perdidas por conta do emocional. Assim como você se esforçou para amar o "carma problemático" que ninguém merece, você pode se esforçar para amar uma mulher que seu racional diz ser perfeita para você. Vê se aprende. Boa sorte com "Tóquio". Abraço.

Larissa Dardengo  -  Cachoeiro de Itap.  -  28/11/2008 ~ 00:06
Não se perturbe... Essa uma guerra travada por todos, onde nunca se tem um vencedor. Equilíbrio seria a resposta mais apropriada. ;)

 
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