
A transgressão das fronteiras, sejam geográficas ou artísticas, é a proposta da sexta edição do Festival Temp D'Images, que teve início no último dia 29 de outubro em Lisboa e vai até 22 de novembro. O Festival acontece em parceria com diversos países europeus numa mistura de arte contemporânea delineada pela construção de objetos que utilizam o teatro, a performance, o vídeo e a tecnologia como ponto de partida da representação artística. Na proposta deste ano, além de espetáculos, instalações, vídeos e intervenções, o Festival, pela primeira vez, apresenta uma seção competitiva para filmes sobre arte, algo considerado único no panorama do cinema português que premia realizadores e estudantes.
Na vastidão da programação do festival, a abertura do evento sinaliza a transdisciplinaridade proposta pelo diretor do evento em Portugal, António Câmara Manuel: a instalação do londrino Isaac Julien, Western Union: Small Boats, que fecha a trilogia do artista iniciada em 2004 com True North. Instalada no mais importante museu de arte contemporânea de Portugal, o Museu do Chiado, Julien retrata a chegada de africanos às costas européias, especificamente da Sicilia, para discutir temas contemporâneos relacionados com a busca por melhores condições de vida desencadeadas pelo sofrimento e angústia que estes imigrantes vivenciaram entre a guerra, a fome e as viagens através do mar mediterrâneo.
O artista expande esta discussão ao referenciar as políticas atuais de imigração em um mundo "tecnologizado", no qual as fronteiras foram rompidas, mas que estão visivelmente evidentes quando tenta-se quebrá-las de modo presencial. Em cinco projeções de vídeos, Julien reforça o papel do indivíduo no meio do fluxo de informação que vive-se atualmente, onde a circulação das vidas humanas e os movimentos dos corpos ainda são fonte de permanente debate.
De Portugal, e também em referência à procura deste lugar do sujeito no mundo contemporâneo, destaca-se o trabalho do jovem coreógrafo português Mário Afonso, que apresenta três elementos durante o Festival: um espetáculo e duas instalações, Peripatéticos e Esquissos e Desenhos, parte do projeto denominado pelo artista como Entre Vistas, aberto ao público de 12 a 22 de novembro no Museu do Chiado e Fundação EDP.
O trabalho, segundo o artista, é fruto do seu processo de criação nos últimos anos, e tem por base a figura do solo como ponto de partida para a reflexão sobre o ato criativo e a função do artista diante dos debates contemporâneos sobre o lugar da arte, do corpo, da identidade e dos desejos. Nos três elementos, Mário Afonso procura apresentar ao público formas representativas que criam uma diversidade de impressões e interpretações. Esses mecanismos funcionam como um convite à reflexão sobre a atual condição humana, elaborados a partir de construções objetivas, e ao mesmo tempo evasivas, que oferecem ao espectador um encontro, ou um desencontro consigo mesmo.
Em Entre Vistas, Mário Afonso cria, a partir dos elementos que apresenta uma harmonização no processo construtivo da sua obra, interligada por conceitos advindos de parte do material adquirido em uma primeira fase do projeto. Nessa fase, o criador, a partir da aplicação de uma metodologia própria, contou com a participação de criadores de diversas áreas artísticas que refletiram sobre questões relacionadas com o ato de criar: o que o move e o que o condiciona. As problemáticas que surgiram durante esse processo e a observação empírica do criador alargaram as perspectivas de Entre Vistas, transformando o projeto em um grande emaranhado de sutilezas performáticas e dramatúrgicas fundidas em processos cognitivos que representam os paradoxos e a busca inerente dos indivíduos contemporâneos.
Entre Vistas é um exercício de indagações, representadas, cuidadosamente, em cada parte do projeto. É um exercício difícil do artista que observa seu redor e o redor alheio para ponderar questões que a filosofia continua a deixar vácuos e lacunas. É uma atividade itinerante e peripatética de um flâneur que passeia pelas peculiaridades da natureza humana, perdidas e sucumbidas pela "tecnologização" da vida.
O Temp D'Images é realizado em Portugal pela Dupla Cena e nasceu da colaboração entre o canal franco-germânico ARTE e a La Ferme du Buisson. Nesta edição, além de Portugal, colaboram 10 países, incluindo os estreantes Roménia e Turquia.
fotos: divulgação