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As feridas de Cris

Em Para Francisco, mãe transpõe para livro cartas que publicava em blog ao filho

por Itamar Cardin
Editor
[18/11/2008]

Uma tragédia e uma alegria infinitas. Lágrimas e sorrisos controlados, dor descomunal e a sutileza literária. Um blog e um livro: o recomeço. Os dois últimos anos serão para sempre inesquecíveis na vida da publicitária mineira Cristiana Guerra, um período associado a tristezas, sofrimentos, incertezas e medos. Período também de descobertas. “Em 2007 perdi o amor da minha vida. Ganhei o outro amor da minha vida. [...] Em 2007 aprendi o que é amor” [publicado em 31 de dezembro de 2007 em seu blog que se tornou livro, o Para Francisco].

Em 21 de março de 2007, Cris teve Francisco, seu primeiro filho. Dois meses antes, Gui, pai de Francisco e marido de Cris, morrera subitamente. Dois sentimentos profundamente contrastantes que se encontravam quatro meses depois, no dia 17 de julho de 2007, data do fim da licença maternidade da publicitária mineira, do aniversário de namoro com Gui, de um ano da descoberta da gravidez e dos seis meses do falecimento. Foi quando Cris resolveu criar o Para Francisco, um blog em que publica, desde então, cartas para o filho.  

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Nesta terça-feira [18/11], o livro Para Francisco foi lançado em Belo Horizonte – na próxima semana [25/11] será a vez de São Paulo. Cris conta que os posts repercutiram e se tornaram famosos na internet com o passar dos meses, o que trouxe a idéia de transformá-lo em livro. “Eu escrevia, atualizava e o blog ganhava mais leitores. As coisas foram ocorrendo naturalmente, até receber a proposta da editora ARX.” 

O primeiro contato ocorreu em abril, após uma reportagem do Globo Repórter sobre o blog – antes, duas pequenas editoras também negociavam a publicação, entre elas a Ficções Editoras, cujo editor, Alonso Alvarez, tornou-se amigo de Cris e responsável pela orelha do livro.

Embora tentasse guardar material inédito, o ímpeto de escrever e publicar sempre era maior, o que resultou em “apenas” vinte textos exclusivos. “Era muito gostoso colocar algo no blog. Acabei publicando quase tudo.”

Apesar da diferença entre mídias, a estrutura do livro será praticamente a mesma do blog. “Não achei que seria fiel contar de um jeito linear, então mantive a estrutura de cartas. Melhorava apenas uma coisa ou outra quando relia o material”, afirma Cris, que salienta ter preferido manter a característica original dos textos para manter-se fiel a si mesma. “Não queria algo extremamente literário. E não era pra história ficar completamente explicada, mas apenas pra exprimir o que eu sentia. Tinha um compromisso com meus sentimentos.” O que talvez será a grande sorte do leitor.

Ao longo das cartas, é possível acompanhar Francisco crescendo, alguns conselhos e justificativas, passagens autobiográficas e o vai-e-vem de uma agonia que parece não dar trégua a Cris. Mas os textos [sentimentos] talhados pela simplicidade e pela leveza parecem feitos sob medida para amenizar não só a possível dor do leitor, como também a da autora. Expõe-se feridas, não sofrimentos. Quem sabe em uma tentativa de utilizar a palavra para talhar, internamente, a mesma alegria tatuada em seu antebraço direito.

_novo ciclo
Se no começo foi difícil conseguir expressar e escrever sobre suas aflições, Cris afirma que a prática e o tempo mudaram essa relação. “Chegou uma época em que o texto jorrava, em que eu não conseguia parar de ter idéias.” Até hoje, a autora pára o carro no trânsito para escrever.

A intensa relação que mantinha com Gui e a personalidade de seu parceiro foram preponderantes para essa inspiração criativa. “Éramos muito ligados. Ele também era uma pessoa muito especial, fazia diferença pra vida de todos que eram próximos. Uma coisa vai puxando a outra, existe muita coisa pra lembrar.”

Com relação ao filho, Cris espera que ele entenda e goste do livro, embora saiba das possíveis implicações que a obra pode causar em certos períodos de sua vida. “Eu o expus, contei a história dele pro mundo. Será preciso calma em certos períodos de rebeldia, como a adolescência.” A aproximação de Francisco com a obra será feita aos poucos. "Algo natural", espera ela. "Que ocorra de acordo com o desabrochar da curiosidade dele."

A aproximação do lançamento do livro trouxe esforço e trabalho extras, o que a sensibilizou ainda mais e tornou as lembranças mais doídas. De alguma maneira, fizeram-na lembrar de que não existe mais luto – apenas uma dor possivelmente eterna. Não que a simplicidade e a leveza tenham se perdido. “Só de falar no assunto quero chorar, mas ando sem tempo para isso. E é sempre mais saudável poder chorar, tanto quanto poder rir”, conclui sorrindo.

Existe ainda uma importante certeza que Para Francisco traz para Cris: ele fechará esse inesquecível ciclo de sua vida. “A partir de agora, começarei uma nova etapa. Faço isso por amor ao Gui, ao Francisco e à mim.”


fotos: acervo pessoal [topo] | elisa mendes [preto e branca] | daniel de jesus [acima]



Helaine Martins  -  da Redação  -  24/11/2008 ~ 12:36
Conheci o "Para Francisco" através do "Hoje vou assim". Fiquei tão obcecada por aquela história que tive que ficar um tempo sem ler pra me desligar. Cada vez que eu lia um novo post, chorava como se aquilo estivesse acontecendo comigo. Hoje eu já leio o "Para Francisco" denovo, vejo religiosamente o "Hoje vou assim" porque ela me inspira e comprei o livro pra lembrar que amor é pra sempre.

 
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