_participe!
 

cinema  |  comportamento  |  geral  |  literatura  | moda  |   música  |  tv viagem  || blog do editor  |  colunas  |  expediente

 
O espaço que há

Quando a física e o amor não se entendem

por Bruno Reis
de Vila Velha - ES

[10/03/2009]

Um dia desses li um comentário sobre o espaço que há, invariavelmente, entre dois grãos de areia. Por mais que eles sejam minúsculos, por mais que estejam próximos, existe um intervalo espacial entre eles, uma folguinha que permite que não ocupem o mesmo lugar. Coisas dessa ciência exata, como exatas são as coisas mais chatas do mundo, chamada fisica. No momento em que li aquela frase, salvo engano, da Clarice, pensei em você. Pensei na gente. Na verdade, acho que nos vi naquela mesma situação: por mais que às vezes pareça que estamos longe um do outro, o máximo de espaço que fica entre nós é exatamente aquele, minúsculo, entre um grão de areia e outro.

É espaço bastante para que a gente consiga não ocupar o mesmo lugar no espaço para, portanto, existirmos juntos e tão colados, tão próximos, que a olho nu torna-se quase impossível perceber aquela vaguinha. Não queremos arrumar confusão com a física, queremos apenas ser um do outro como são os casais que não têm medo de viver à flor da pele, ao sabor dos ventos apaixonados que passam os dias a bagunçar o mar. Quando nos sentamos no cinema, olhos vidrados na tela, pés se tocando e dedos emaranhados, o único espaço que existe entre nós é aquele. Quando nos olhamos nos olhos, fixados um no outro como se tivéssemos nascido única e exclusivamente para fazer parte daquele momento, apenas a tal lacuna invisível faz com que a gente não esteja junto para valer.

Em pensamento ou fisicamente, não existe nada que consiga nos colocar à distância um do outro, assim como dois grãos de areia se completam e se unem como se fossem ímãs de uma paixão desesperadora - e mesmo entre esses ímãs, que aparentam ser tão unidos como unha e carne, verdade e consequência, há um espaço. Quando caminhamos lado a lado, quando nos deitamos e misturamos pernas e braços, olhos e bocas, cabelos e cheiros, quando não há o que dizer e o silêncio abençoa as mãos que se tocam sem precisar de aviso prévio, em todos esses momentos, há um espaço entre nós. Um intervalo espacial, determinado por alguma lei idiota da física, que insiste em manter longe quem não quer passar nem um minuto mais afastado.

Dane-se a física. Danem-se suas leis, danem-se os grãos de areia, os ímãs, as lacunas, as vagas, os intervalos. Para mim, tão fatal e incontornável quanto a morte que nos ronda todo minuto e a vida que assina embaixo a nossa permanência, esse tal espaço que há entre nós só pode se chamar amor.



 

*Bruno Reis é publicitário por formação, escritor por paixão e teimoso por falta de opção. Ama como se não houvesse espaço algum entre dois corpos. E, se há, que seja o próprio amor.



Julia  -  Vitória  -  10/03/2009 ~ 23:36
Odeio os físicos! =) Tá lindo o texto, traduziu direitinho...

valeria  -  sp  -  11/03/2009 ~ 19:21
dizer o quê? amei:) inspiradíssimo. beijoca.

Natália  -  Vitória  -  12/03/2009 ~ 01:12
Adorei!

carol  -  12/03/2009 ~ 21:59
texto daqueles que a gente lê num fôlego só... =D

 
© Copyright Revista Paradoxo 2003~2008. Todos os direitos reservados