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O blog como terapia

Duas mulheres que usaram o blog para ajudar a superar a dor das perdas

por Lívia Cunha
[17/03/2009]

Tudo começou com uma perda. Uma lágrima, um vazio e uma tentativa de entender e de explicar o que estava acontecendo. As perdas foram diferentes, mas o caminho, o mesmo: criar um blog para escrever e não esquecer aqueles que foram perdidos. Para os que ficaram, muitas histórias foram contadas. As dessas perdas, mas, principalmente, as dessas vidas. Do Geraldo, do Guilherme, do Francisco, da Cristiana e da Stella. Personagens tão intensamente reais desta outra história que agora você lê.  

Stella Cavalcanti nasceu em 1970, em Pernambuco. Era a filha mais nova do doutor Geraldo. A caçula de três irmãs. Morou no interior do Estado, mudou-se para Recife. Saiu da cidade, foi para o interior, voltou para a cidade. Viveu 17 anos ao lado dele até que o perdeu pela primeira vez, quando ele teve um acidente vascular cerebral (AVC) e ficou em coma. "Primeiro eu o perdi emocional e intelectualmente: ainda tinha o corpo do meu pai vivo, mas era só isso." Foram cinco anos até a segunda perda, quando Geraldo, enfim, morreu. 

Em 2003, aos 33 anos, Stella criou o Blog do Meu Pai para que não o perdesse pela terceira vez. "Fiquei chocada quando comecei a perceber que estava começando a esquecê-lo." O desejo de evitar mais uma perda é que a motiva a continuar escrevendo, mesmo depois de tantos anos. "No blog volto a ser a filha do doutor Geraldo. É um lugar protegido do mundo lá fora. Na vida real tenho de ser adulta, tomar decisões, resolver problemas. Quando escrevo no blog, escrevo direto do meu coração, e isso é maravilhoso." 

Stella mora no Rio de Janeiro. Casada, trabalha como publicitária e tem vários gatos – uma de suas paixões. Mas, claro, não se esquece do pai. "Quando a lembrança vem, a saudade bate, eu escrevo", explica.  No blog, escreve sobre o pai de maneira ímpar. Não é um espaço de resignação, mas de nostalgia. Sem a carga de tristeza, resta a lembrança. "Meu pai gostava de cafuné e não gostava do mês de abril"; "meu pai gostava de comer ravióli. Ele pegava a lata de ravióli, abria e comia frio", escreveu no blog. 

Assim como Stella, Francisco perdeu o pai. Só que não se lembra, porque foi antes de ter nascido. Antes, Cristiana e Guilherme, os pais dele, namoravam e estavam felizes, como Cristiana lhe contaria futuramente: "Papai e mamãe passavam horas rindo juntos. Cantavam juntos ao longo de toda viagem. Faziam piada de tudo. Ríamos também nos e-mails que trocávamos, nos telefonemas. Imagine, Francisco, que ele gostava de ver a novela das oito com a mamãe."



Cristiana Guerra, também publicitária, nasceu em Minas Gerais, onde ainda mora aos 38 anos. Uma verdadeira guerreira, como é recorrentemente chamada, que viveu muitas perdas. Primeiro a mãe, aos 24 anos; depois o pai, aos 31; e o marido, aos 36. Ela encontrou uma saída para escapar do sofrimento: a palavra. "Acho que sempre me salvei pela expressão. Sempre falei e escrevi muito sobre minhas dores. E fui aprendendo a ter humor para lidar com tudo isso. O humor nos salva." 

A última grande perda foi em janeiro de 2007. Guilherme morreu, subitamente, dois meses antes de o filho nascer. Francisco veio ao mundo em 21 de março de 2007. Quatro meses depois, Cristiana criou o para Francisco: um blog de mãe, sobre o pai, para o filho. "Quando entendi que era para o Francisco, principalmente, que eu precisava falar, criei o blog, sem muitas pretensões, apenas para ter onde colocar meus sentimentos a qualquer hora do dia, em qualquer circunstância ou lugar", explica Cristiana.  O espaço de desabafo ganhou corpo e virou um livro homônimo. Para Francisco foi lançado no final de 2008, pela editora ARX.   

Seja em qual meio for, no digital ou no papel, Stella e Cristiana concordam que falar sobre as perdas as ajudou a superar as situações pelas quais passaram. Para Cristiana, o blog ajuda por ser forma de expressão e de troca com outras pessoas. "Pelo blog, encontrei pessoas que me enterneceram, como uma senhora de 60 anos que tinha acabado de perder o pai, ou uma moça que perdeu o pai quando era menina e tinha poucas lembranças dele. Essa troca de experiências, de carinho, me faz muito bem", retala, por fim, Stella.

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Luto: a dor de uma perda - Como superar a aflição que parece não ter fim



Paula Clarice  -  Lages-SC  -  18/03/2009 ~ 14:16
Fiquei amiga da Stella através da blogosfera mas, antes disso, eu já lia e gostava muito do blog do pai dela. Um ponto de vista que não aparece no texto é o dos leitores, que leem os depoimentos tao sinceros das blogueiras que acabam se identificando e projetando, nas palavras da Stella (e da Cristiana), seus sentimentos, as alegrias, os medos. Gostei bastante da matéria, parabéns.

 
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