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Little Boots não tem medo do pop assumido

Projeto solo de Victoria Hesketh sai do gueto dos blogs em busca de sucesso nas paradas

por Rogério Brandão
[16/06/2009]

“Acredito que o objetivo é vender álbuns”. Em entrevista ao site Popjustice, especializado em cobrir artistas com DNA 100% radiofônico, Little Boots proferiu a frase que os admiradores de música mais xiitas temem com todas as forças. Qual o limite entre o imediatismo calculado e a espontaneidade artística? Há limites? Sem dúvidas, perguntas como estas surgem cada vez com mais frequência, quando seus artistas prediletos lançam um trabalho mais palatável que o anterior com a intenção de galgar muitos degraus nos charts. 

Victoria Hesketh, a inglesa por trás do pseudônimo Little Boots, não tem medo do showbizz e quer deixar claro que a vontade de fazer sucesso não interfere na identidade artística. Vinda da pequenina Lancashire, no noroeste inglês, a bela loira de feição delicada já foi morena e comandava os vocais e teclado do trio feminino de New Wave/Pós Punk Dead Disco. A banda durou tão pouco que fez apenas burburinho entre nos blogs de mp3 e alguns críticos que apontam novas tendências. Quatro singles foram suficientes para se replicarem em inúmeros remixes que turbinaram os cases de DJs mais antenados. 

Com o fim, Victoria anunciou o projeto solo batizando-o a partir do apelido dado a um amigo depois que ele assistiu ao filme Calígula. Este nome de origem latina significa em inglês...tah-dah...“little boot”. Daí até conquistar a web com sua primeira cria solo não demorou muito. Trata-se da canção Stuck on Repeat, uma odisséia Dance de sete minutos que versa sobre estar em looping hipnótico enquanto escuta uma certa canção. Não à toa, Victoria criou um loop melódico semelhante ao que o influente produtor italiano Giorgio Moroder elaborou para o hit I Feel Love, da Donna Summer. Metalinguagem inteligente. 

Após bater de porta em porta procurando algum produtor para a canção, o acaso levou seu nome a Joe Goddard, do Hot Chip, que enxergou potencial e se ofereceu para ajudar a compô-la. De acordo com reportagem da revista The Fader, a cantora finalizou o restante de Stuck on Repeat com a Kylie Minogue na cabeça. Concluída, a faixa tomou de assalto os blogs especializados em música eletrônica tanto em versão original quanto nos inúmeros remixes que a música teve. 

Ao contrário de inglesas que conquistaram o sucesso graças à Internet como Lily Allen e Kate Nash, Little Boots ganhou popularidade a partir do público da e-music, fazendo a ponte com o pop deslavado de melodias convidativas. Um dos resultados desta união é o topo da lista criada pela BBC que aponta as principais apostas musicais de 2009. O outro é Hands, álbum de estréia que foi lançado recentemente no Reino Unido. 

_o álbum 

Para manter a obsessão pop de Victoria, Greg Kurstin – integrante do duo The Bird and the Bee e produtor de um dos singles do Dead Disco – também foi escalado para dar um verniz radiofônico ao álbum. Apesar de criatividade não ser o forte do trabalho, Hands soa como um sopro de perspicácia na seara pop assumida. Ele serve também como uma saída para aqueles que tem aversão às baboseiras que as musas pop cantam ou vergonha de dizer que gostam de Kylie Minogue, com quem a cantora é frequentemente comparada. 

Nas 12 canções do álbum, todas compostas pela artista, as cascatas de sintetizadores norteiam as melodias, ora mais intensas, ora mais sutis. New in Town, produzida por Kurstin e primeiro single do trabalho, inicia a jornada com a cantora convidando gentilmente um novato no pedaço para dar um role na cidade que ele recém-conheceu. Se por um lado ‘queima’ uma das faixas mais redondas logo de cara, por outro abre o trabalho com uma letra acolhedora e inspirada na temporada que Victoria passou em Los Angeles gravando o álbum. 

Em seguida, Earthquake dá prosseguimento à procura do Electropop perfeito narrando as agruras dos problemas de relacionamento. “Eu não aguento com você chega em casa e nós brigamos por horas”, desabafa na letra. A trinca de ouro inicial é fechada pela supracitada Stuck on Repeat. Aqui ela está com comercializáveis três minutos de duração, que cortaram a vibe hedonista de pista de dança em prol de futuros airplays nas rádios. 

Boots diminui consideravelmente os BPM´s em Click para apostar em ambiências e, embora não seja de toda ruim, soa apagada por estar ensanduichada entre a Stuck... e Remedy, o próximo single. Esta última é de uma rasgação pop sem tamanho e no limiar da fuleiragem, com letra baladeira que versa sobre a dança ser o remédio contra um stalker que a caça sempre prometendo mentiras. O produtor do futuro hit é RedOne, o mesmo de Just Dance e Poker Face, da Lady GaGa. Qualquer semelhança com a temática do primeiro sucesso de GaGa não é mera coincidência. 

Enquanto Victoria estava com a Kylie na cabeça quando concebeu Stuck..., Joe Goddard se baseou em Toxic, da Britney Spears, para compor as batidas secas e aceleradas de Meddle. Esta foi a segunda canção a figurar no boca-a-boca dos trendsetters e ajudou a cimentar o nome da garota de 25 anos entre as promessas musicais do Reino Unido. 

Ainda abordando relacionamentos, a equação amorosa de Mathematics prova por a + b como um tema tão batido pode ter versos inventivos. Em tom de semi balada, Victoria calcula: “Pegue um pouco da minha mente e a retire da minha alma/ Acrescente uma fração da sua metade e você vai ver que isso me completa”. 

A única participação especial do álbum fica a cargo de Philip Oakey, vocalista do Human League, em Symmetry. A faixa mais oitentista de Hands resgata os melhores momentos Synthpop produzido pelo grupo de Oakey, cujo característico duelo entre voz masculina e feminina também se faz presente aqui.  Na cola deste dueto vem um dos pontos altos do álbum. De batida bem marcada, a balada Tune Into My Heart surge quase no fim do álbum sugerindo uma forma de comunicação emocional e sci-fi para que o casal evite a solidão quando não estão juntos. Walter Bishop, personagem do seriado Fringe, certamente se inspiraria nesta canção para um de seus inúmeros experimentos. 

Mesmo possuindo a enfadonha Ghosts e algumas faixas mornas, Hands apresenta os elementos necessários para ser bem sucedido: é bem produzido, tem ótimo apelo mercadológico e é executado por uma bela loira que, apesar da falta de elasticidade vocal, oferece o essencial para as músicas. Ainda assim, Victoria não se contentou em amontoar uma porção melodias pegajosas e escreveu versos inspirados, vistos com tanta dificuldade nas músicas das cantoras pop. O debut de Little Boots está longe de marcar época, mas não é nada mal para alguém que não escondeu que o objetivo do projeto é vender álbuns. Que venham as platinas, então. 

Hands
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Little Boots
679 / Atlantic



 
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