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Conheci São Paulo

Os contrastes e clichês estavam ali

por Gabriel Louback
de São Paulo

[23/06/2009]

Ela disse um dia gostar dos meus textos sobre a cidade, mesmo nunca ela própria tendo conhecido-a. Ontem, me escreveu.  "Conheci São Paulo. Achei que ela é tudo aquilo que você escreve", me disse, via chat. Pedi que escrevesse sobre a impressão de estar na cidade. Segue abaixo.

"Enquanto me esforçava pra esconder o jeito de recém-chegada, Sampa se apresentou como uma velha conhecida. Todas as fotos, imagens, histórias, reportagens, referências e músicas se materializaram numa proximidade confortável com a cidade onde eu nunca havia pisado. Os contrastes e clichês estavam ali: o cinza dos prédios por todo lado, o trânsito caótico, os milhares de passos apressados nas ruas, as tribos e os solitários, a profusão de sotaques misturados, os nomes de ruas e bairros conhecidos. Tudo me dizia: 'Seja bem-vinda, essa é São Paulo'.

Não consegui arrancar do rosto o sorriso bobo de quem percebe a Avenida Paulista a fervilhar ao final da tarde mostrando que o caos também tem beleza. Na Estação da Luz, bonita como uma pintura, havia a surpresa do piano destinado ao talento de quem se dispusesse, como o do rapaz encurvado de boné, que tocava uma melodia suave, perdida em meio ao ruído dos trens.

Vários mundinhos se desvendavam à parte, como o Mercadão, tão rico de gostos, cheiros e cores que inebriam instantaneamente os desavisados. A 25 de Março berrava ofertas e produtos ‘imperdíveis’ a plenos pulmões, enquanto os comerciantes de olhos puxados confidenciavam coisas que só eles entendiam. Era o mesmo mistério dos cartazes afixados nos postes da Liberdade.

Tanta coisa. A democracia dos prédios antigos vizinha das modernidades arquitetônicas. Os espaços do Masp abrigando senhoras bem vestidas, alguns prováveis intelectualóides e pessoas com cara de dúvida, enquanto casais adolescentes namoravam discretamente em frente às exposições e no vão livre. O contrato silencioso entre as pessoas no metrô, determinando que os olhares precisavam ser afixados qualquer ponto neutro, evitando encontros entre si, por mais que o vagão estivesse lotado.

Se dependesse de mim, a amiga-guia só mostraria os caminhos e a minha curiosidade se encarregaria do restante. Mas o tempo curto de três dias colocou praticidade nas coisas e o roteiro se limitou como pôde. Ficaram ainda tantas coisas por ver: os bares da Vila Madalena, o estádio do Pacaembu, a Pinacoteca do Estado, o Ibirapuera em dia de domingo, as feirinhas na Liberdade, o MAM, o Terraço Itália, a Galeria do Rock, o Teatro Municipal, o Memorial da América Latina...

Minha amiga tentava demover minha animação descrevendo o quanto São Paulo podia ser hermética e solitária. Porém isso não me interessou. Quando o avião levantava voo ao final dos três dias, eu já levava uma ótima lembrança da cidade e seus aspectos agridoces. Ficou a vontade de voltar e, ainda com olhar um tanto quanto romantizado sobre as coisas, descobrir mais da Sampa desconhecida e querida."

*Monique 'Moro' Machado é jornalista, capixaba e mineira de coração.

*Gabriel Louback é jornalista e não gosta de telefone.



renatinha  -  sampa  -  23/06/2009 ~ 13:38
Olha só, ela me fez gostar muito muito de S. Paulo durante esses 2 ou 3 min que levei lendo o texto... Sampa pode ser realmente incrível. Pra quem tem tal sensibilidade.

sabine  -  São Paulo  -  23/06/2009 ~ 21:51
Lembrei da minha visita a São Paulo em março de 2008. A euforia da chegada, o carinho pela cidade, a quase tristeza de partir e o desejo de voltar em breve. Tudo tão decisivo e importante que acabei me mudando pra cá. Dizem que a primeira impressão é a vale. São Paulo tem impressões demais para levarmos em conta. Todas valem demais.

monique  -  23/06/2009 ~ 21:58
Fiquei muito feliz de escrever sobre a visita, acho que a saudade de sampa só aumentou. Quem sabe um dia eu faço como a sabine me mudo de vez? =)

Ana  -  São Paulo  -  24/06/2009 ~ 08:13
Engraçado. Todo texto que resolvo fazer sobre são paulo não sai de uma sinestesia viciada em melancolia e solidão. Adorei o texto!

Willian Cavalcanti  -  Montes Claros  -  08/12/2009 ~ 11:57
Ah, mas como esse Google nos surpreende. Eu estava procurando o Twitter da Monique (todos sabem do seu fascínio por aquela ferramenta) e acabei vindo parar neste site. Parabéns para a Monique, ótimo texto.

 
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