Ela disse um dia gostar dos meus textos sobre a cidade, mesmo nunca ela própria tendo conhecido-a. Ontem, me escreveu. "Conheci São Paulo. Achei que ela é tudo aquilo que você escreve", me disse, via chat. Pedi que escrevesse sobre a impressão de estar na cidade. Segue abaixo.
"Enquanto me esforçava pra esconder o jeito de recém-chegada, Sampa se apresentou como uma velha conhecida. Todas as fotos, imagens, histórias, reportagens, referências e músicas se materializaram numa proximidade confortável com a cidade onde eu nunca havia pisado. Os contrastes e clichês estavam ali: o cinza dos prédios por todo lado, o trânsito caótico, os milhares de passos apressados nas ruas, as tribos e os solitários, a profusão de sotaques misturados, os nomes de ruas e bairros conhecidos. Tudo me dizia: 'Seja bem-vinda, essa é São Paulo'.
Não consegui arrancar do rosto o sorriso bobo de quem percebe a Avenida Paulista a fervilhar ao final da tarde mostrando que o caos também tem beleza. Na Estação da Luz, bonita como uma pintura, havia a surpresa do piano destinado ao talento de quem se dispusesse, como o do rapaz encurvado de boné, que tocava uma melodia suave, perdida em meio ao ruído dos trens.
Vários mundinhos se desvendavam à parte, como o Mercadão, tão rico de gostos, cheiros e cores que inebriam instantaneamente os desavisados. A 25 de Março berrava ofertas e produtos ‘imperdíveis’ a plenos pulmões, enquanto os comerciantes de olhos puxados confidenciavam coisas que só eles entendiam. Era o mesmo mistério dos cartazes afixados nos postes da Liberdade.
Tanta coisa. A democracia dos prédios antigos vizinha das modernidades arquitetônicas. Os espaços do Masp abrigando senhoras bem vestidas, alguns prováveis intelectualóides e pessoas com cara de dúvida, enquanto casais adolescentes namoravam discretamente em frente às exposições e no vão livre. O contrato silencioso entre as pessoas no metrô, determinando que os olhares precisavam ser afixados qualquer ponto neutro, evitando encontros entre si, por mais que o vagão estivesse lotado.
Se dependesse de mim, a amiga-guia só mostraria os caminhos e a minha curiosidade se encarregaria do restante. Mas o tempo curto de três dias colocou praticidade nas coisas e o roteiro se limitou como pôde. Ficaram ainda tantas coisas por ver: os bares da Vila Madalena, o estádio do Pacaembu, a Pinacoteca do Estado, o Ibirapuera em dia de domingo, as feirinhas na Liberdade, o MAM, o Terraço Itália, a Galeria do Rock, o Teatro Municipal, o Memorial da América Latina...
Minha amiga tentava demover minha animação descrevendo o quanto São Paulo podia ser hermética e solitária. Porém isso não me interessou. Quando o avião levantava voo ao final dos três dias, eu já levava uma ótima lembrança da cidade e seus aspectos agridoces. Ficou a vontade de voltar e, ainda com olhar um tanto quanto romantizado sobre as coisas, descobrir mais da Sampa desconhecida e querida."
*Monique 'Moro' Machado é jornalista, capixaba e mineira de coração.
*Gabriel Louback é jornalista e não gosta de telefone.