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Um junkie de chuteiras

Dentro de campo ele fez história. Fora dele, mais ainda...

por João Martins
[24/06/2009]

Falar que Paulo César Caju foi um grande jogador é "chover no molhado". Ele foi pentacampeão carioca, duas vezes campeão mundial e uma vez nacional. Além disso, passou por grandes times e - exceção feita a Vasco e Corinthians – sempre com sucesso. No Botafogo, explodiu ao lado de Gérson e Jairzinho. No Flamengo, alucinou zagueiros fazendo dupla com Doval. No Fluminense, fez parte da máquina dos anos 1970. Mas talvez o que mais chame atenção em Caju, que completou 60 anos esse mês, seja o que ele representou fora de campo.

Pioneiro. Assim como 'craque', esse é o melhor adjetivo que define Paulo César Lima, um jogador que - pelo menos no Brasil – não teve postulante. Era um desbundado e deslumbrado que tinha trânsito livre entre a massa que o via no Maracanã e a elite intelectual carioca da época. Sempre com seu conversível da cor de seu cabelo e, posteriormente, do seu apelido.

PC, como era chamado pelos amigos, foi um vanguardista em suas atitudes. Foi o primeiro negro a frequentar as rodas 'brancas' da Zona Sul do Rio, o primeiro jogador a falar sobre temas que iam além do esporte bretão – com um discurso muito mais hedonista do que moralista – e, também, um dos primeiros jogadores a se envolver drasticamente com a cocaína.

Mas Paulo César não nasceu rebelde. Era um menino humilde e dedicado que, segundo ele próprio, ia bem no colégio, mas sabia que só ganharia dinheiro mesmo se fosse com o futebol. Assim, foi ao clube mais próximo de sua casa, o Botafogo, tentar a sorte.

Numa época em que o alvinegro jogava a fina flor, Caju logo surgiu como promessa. Promessa que não tardou a vingar, já em 1967, aos 18 anos, foi para a Seleção. E, aos 20, fora campeão do mundo ao lado de uma constelação, no México.

Já campeão do mundo, PC, resolver ousar. O negro de origem simples foi freqüentar os mesmo lugares dos bem-nascidos do Rio. “Se vocês me aceitam no domingo no Maracanã, vão ter que me aceitar na segunda-feira na boate que vocês freqüentam”, dizia.

O 'camisa 9' do Botafogo já era dono de um conhecido e chamativo conversível cor de caju, que frequentava com seu dono as rodas mais badaladas. Anos mais tarde, já jogando no Flamengo, ele daria ao seu cabelo as cores de seu carro e ganharia, não se sabe de quem, o apelido Paulo César Caju.

Isso no início da década de 70, quando Caju andava com a turma do desbunde do Arpoador, onde subiam para ver o pôr-do-sol e fumar seus “baurets”, como dizia Tim Maia. Mas o jogador jura que, nessa época, só ficava no álcool e diz que tinha certo preconceito com que usava drogas.

Só na França ele foi se deparar com drogas que não estão na prateleira. E, assim como no futebol, foi bem precoce. Logo de cara, quando chegou a Europa, Caju continuou levando o mesmo estilo de vida que levava no Brasil. Mas agora sua diversão era regada a champanhe e cocaína. Paulo César não sabe dizer ao certo quando se viciou. “Ia usando apenas.” Sempre ao lado da nata intelectual parisiense de então.

Depois de dois anos na Europa, ele retornou ao Brasil trazendo o vício na bagagem. Desta vez, para jogar no Fluminense, seu terceiro clube carioca. O jogador veio a peso de ouro para compor a máquina tricolor da década de 70.

Aliás, Caju sempre nutriu certo desprezo pelos dirigentes, evitando que esses lucrassem com o suposto amor à camisa que é delegado aos boleiros. PC sabia que a carreira era curta. E conhecendo bem a índole dos mandatários dos clubes, sempre fez questão de ser muito bem pago.

_de volta a 1975
Além do vício, Caju adquiriu boa carga cultural na Europa. Paulo César era notadamente conhecido como um jogador, digamos, mais “cult” que os demais.

Mas o vício foi se alastrando, e depois do bi-carioca pelo Flu, em 1975 e 76, o jogador não obteve êxito por um longo tempo. Talvez, a partida mais importante deste período tenha ocorrido bem longe do Maracanã. Mais exatamente, na avenida Sernambetiba, na Barra da Tijuca.

Foi lá que Caju, em 1980, ao lado de toda a seleção da MPB – que tinha como capitão e “dono do time” Chico Buarque – encarou um ilustre adversário. Tratava-se de Bob Marley e sua banda de apoio.

Em meio a tantos músicos, quem mais chamou a atenção de Bob foi Paulo César Caju. Não por ser um dos pouco negros presentes, mas por ter integrado a seleção de setenta. O rei do reggae, aficionado por futebol, lembrava de Caju com a amarelinha, mesmo que ele tenha sido apenas um coadjuvante, no tricampeonato na copa do México.

“O Brasil é meu time. Torço pro Brasil por culpa daquele time” – disse o músico a Caju, se referindo à seleção que conquistara o tri.

O jogador conta que Bob tinha vontade de ensinar o futebol brasileiro aos jamaicanos e teria o convidado para ajudá-lo nessa empreitada: “Antes do Bob voltar para a Jamaica, ele me pediu para ajudá-lo com um projeto que tinha. Ele queria criar uma escola de futebol na Jamaica, mas ficou doente e infelizmente eu nunca pude vê-lo novamente."

Quando Bob veio ao Brasil, seu câncer estava em estágio avançado. Pouco tempo depois de retornar á Jamaica, fora internado e, em menos de um ano, morreria. Caju, nesta época, andava de clube em clube sem obter sucesso, o vício ia só aumentando e sua carreira como jogador só resistia graças ao que fizera no passado.

Só em 83, que o jogador cessou com as drogas e voltou a fazer as pazes com o futebol. Após a conquista da Libertadores, o Grêmio queria se reforçar para disputar o campeonato mundial dali seis meses e Paulo César fora um dos escolhidos.

Como seu vício já era de conhecimento dos dirigentes. Fábio Koff, presidente do Grêmio na época, contratou P.C. e antes de sua apresentação lhe mandou para uma clinica de desintoxicação em Gramado. O Grêmio foi campeão do mundo, mas como seu contrato não fora renovado, Caju encerrou carreira ali.

Em 2006, quando lançou sua auto-biografia, Paulo César declarou que todo o time gaúcho jogara a decisão dopado e ele se recusara, por isso, ficou mal visto dentro do clube. Ao saber disso, Fábio koff, hoje presidente do Clube dos Treze, resolveu processar o jogador.

Longe dos campos, a vida desregrada de Caju seguiu adiante com ainda mais força, até que seu corpo não agüentasse mais. Em 2001, com algumas veias do coração entupidas e após inúmeros pedidos dos médicos, Paulo César chegou, na virada do ano, a casa de seu grande amigo Cláudio Adão e admitiu ter usado novamente cocaína. O boleiro se recusou a recebê-lo e disse para que ele só voltasse quando tivesse parado com tudo.

Segundo Caju, isto foi definitivo. A atitude de Cláudio Adão teria lhe tocado profundamente e então ele resolveu parar. Paulo César, em sua biografia, conta que ele não teve dificuldades para abandonar a droga, e, se quer, teve alguma recaída. O ponta direito driblou o vício, com a mesma facilidade que fazia isso com os zagueiros.



 
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