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Histórias musicais
Narrativa de qualidade e minucioso trabalho de pesquisa fizeram de Sérgio Cabral o grande biógrafo da MPB por Leandro Augusto Silveira
O carioca Sérgio Cabral pode ser apontado como o principal biógrafo da Música Popular Brasileira (MPB) em seus mais de 50 anos de carreira. Humildemente, porém, define seu O relançamento das biografias Antônio Carlos Jobim - Uma Biografia e Nara Leão - Uma Biografia atende a uma efeméride: os 50 anos da bossa nova, completados em 2008. Mesmo que de modo diferente, os dois biografados foram fundamentais na história do estilo musical criado por João Gilberto. Para manter o alto nível de seus livros, Cabral realiza um trabalho rotineiro de armazenar diariamente recortes de jornais e realizar consultas a Biblioteca Nacional. Mas suas obras não se resumem apenas à faceta de pesquisador. Além de jornalista, ele é crítico musical, produtor musical e compositor. Essas vertentes permitiram que se tornasse personagem presente na vida de quase todos os biografados. Como principal referência para suas obras, Cabral tem as próprias fontes primárias. Ele conta o que viveu e ouviu, em um trabalho fundamentado em arquivos pessoais e na memória. A amizade com Tom Jobim, por exemplo, ajuda na narrativa e deixa o texto mais leve. Todo esse conhecimento e pesquisa são entremeados por uma narrativa de qualidade e sem personalismos. Cabral foi um dos participantes, mas nem por isso interfere nas histórias, descritas com irrefutáveis sinais de nostalgia por um dos maiores conhecedores da MPB. Pesquisador, ele apresenta ao final das duas biografias uma das marcas de seus livros: a musicografia completa dos artistas, fundamental para quem pretende se aprofundar nas obras dos músicos. A reedição tem outros méritos, e entre eles está o bom trabalho gráfico. Porém, a revisão não caminha no mesmo nível. Há alguns erros claros, que poderiam ser evitados, mas que de modo algum empobrecem o resultado final. Como o próprio Sérgio Cabral diz, “sou jornalista, não sou escritor”. Por isso, a verossimilhança é uma de suas principais preocupações. É possível perceber o intenso trabalho de pesquisa, sem que a obra perca o ritmo ou fique difícil de ler. O trabalho do repórter, sempre esmiuçado, é revelado pelos jornais pesquisados e pelas entrevistas realizadas. Em um trecho da biografia, Cabral escreve que Tom Jobim sonhava em ver sua obra reproduzida em songbook, para que ficasse disponível para outros artistas e se eternizasse. O desejo foi realizado. A obra de Cabral tem significado parecido. Pela abrangência e qualidade, se tornou um relato importante da história de Tom Jobim e, mais do que isso, uma referência. Um trabalho arduamente construído durante 25 anos que retrata com sobriedade o universo pessoal e profissional do maestro universalizou a música brasileira. Na introdução da biografia de Nara Leão, Sérgio Cabral revela que possuía uma antiga pretensão de contar a história da música popular brasileira escrevendo sobre a obra e a vida de seus principais personagens. Se provavelmente não vai conseguir recontar todas as histórias, diante da riqueza da MPB, é inegável que ele terá importante papel na bibliografia do gênero musical. E seus próximos passos já estão sendo dados. Para escrever só possui uma precaução. “Não escrevo biografias de gente viva para evitar que ocorra comigo o que aconteceu com Paulo César Araújo na biografia de Roberto Carlos. Os personagens vivos são portadores de neuroses que a gente nem imagina”, justifica. Neste ano, Sérgio Cabral se aproveitou de mais um aniversário para premiar a MPB com mais uma biografia. Trata-se do livro Ataulfo Alves: vida e obra. O autor de Ai, que saudades da Amélia [escrito em parceria com Mário Lago] e de tantos outros sambas antológicos, que versavam sobre temos tão diferentes como a vida boêmia e o trabalho, ganha uma biografia no ano de seu centenário. Depois de Ataulfo, o próximo trabalho a ser lançado abordará as histórias de Aracy de Almeida.
rodrigo - Contagem - 19/08/2009 ~ 19:44
vera - Belo Horizonte - 25/08/2009 ~ 07:40
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