O ser humano é capaz de tudo, inclusive de uma boa ação. Essa frase é atribuída ao escritor mineiro Paulo Mendes Campo [1922 – 1991]. Pode soar como uma provocação. Poder ser lida como um viés deveras pessimista. Ou poder ser a mais pura e real condição
da humanidade. Afinal, nada mais humano que uma canalhice aqui e acolá, que o rancor, o ódio, a traição, o sadismo e a maldade. Nada mais humano que nossas imperfeições morais.
É com essa premissa que o escritor sergipano Antonio Carlos Viana constrói seus contos. Histórias cáusticas, desesperançosas, abrasivas, perversas e, apesar de tudo, profundamente humanas. Apesar de estar em seu quinto livro, sendo o terceiro em uma grande editora, Viana é pouco conhecido do grande público. Azar do grande público. Escritor de estilo conciso e direto, seus textos ultrapassam os indefectíveis 140 toques do Twitter, mas raramente se prolongam por mais de algumas poucas páginas. São histórias habilmente construídas, com poucas palavras, econômicas. Não se estendem mais que o necessário, e Viana faz dessa medida sua forma para nos entreter e arrebatar. Não há concessões, não há espaços para sentimentalismos. Somente o mínimo e necessário para construir pequenas e saborosas narrativas.
Transitando entre ambientes rurais e urbanos, Viana escreve quase todos os seus contos em primeira pessoa. A memória dos narradores é sincera ao ponto de não duvidarmos da verossimilhança dos relatos. E quando achamos as situações por demais tristes, os pensamentos por demais cruéis, nos lembramos da nossa condição humana; imperfeita e absolutamente capaz de conceber as piores tragédias, ainda que apenas em solitários devaneios contidos e armazenados em um canto escuro da mente.
Mas nem tudo são trevas nos contos que compõe o livro Cine Privê. Em meio ao lamaçal moral, sobressaem pequenas pepitas de humanismo e compaixão. Os contos narrados por crianças contando passagens marcantes da infância são um caso à parte. A partir de relatos e situações absolutamente simples, o autor chega a histórias e exemplos incrivelmente interessantes.
“Dia de sábado, quando fazíamos feijoada, vovó Inocência batia dois pratos numa boa e depois ainda chupava duas mangas. Desse jeito, com pouco tempo, estaria gorda, bem gorda. E ficou mesmo, a ponto de não poder mais ir ao banheiro sozinha, alguém tinha de ir segurando seu braço. Se demorasse, urinava ali mesmo na cadeira, que se transformava numa poça d’água que eu tinha de enxugar e depois passar água sanitária.” Passagens como essa, de um cotidiano gritante, compõe histórias que transpassam o dia-a-dia modorrento e banal. São histórias que acontecem, que todo mundo ouve, ouviu ou ainda vai ouvir. São histórias de gente comum, que quando não contadas por um narrador hábil, as esquecemos logos depois de escutá-las. No entanto, há vida no cotidiano e há literatura que se aproveita disso.
Não procure nos contos de Viana a violência gratuita que por vezes contamina alguns relatos, nem as tórridas cenas de sexo que tanto agradam muitos leitores e tanto empobrecem muitos contos e romances. Tampouco se deixe enganar pela aparente fragilidade de algumas narrativas – propositalmente curtas e habilmente talhadas para assim o serem. Apesar de conter histórias graves, o livro é prazeroso e de leitura rápida, rapidíssima. Deixam um travo amargo, mas acabam nos fazendo bem. É quase como um remédio de gosto ruim que serve para nos curar de alguma doença. Com a ressalva que o xarope nós tomamos por obrigação, a o livro se esvai por prazer.
Cine Privê
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Por Antonio Carlos Viana
Companhia das Letras
122 págs
$ 32