_participe!
 

cinema  |  comportamento  |  geral  |  literatura  | moda  |   música  |  tv viagem  || blog do editor  |  colunas  |  expediente

 
Uma música, muitas lembranças

Refazendo a infância a partir de uma canção

por Bruno Reis
de Vila Velha - ES

[16/09/2009]

É incrível como uma música é capaz de trazer tantas lembranças empoeiradas à tona. Uma canção apenas, não é necessário mais do que isso, e me vejo de novo aos 11 anos, com todas as dúvidas e certezas da época, em pleno ano de 1992. Não existia internet nas casas, os discos ainda eram basicamente de vinil e o CD, grande novidade, apenas começava a incomodar o mercado. A moeda vigente ainda não era o Real, Michael Jordan era o rei do basquete, o Flamengo era um time campeão e a vida era, sim, um bocado mais fácil de se levar.

As responsabilidades que me cabiam não passavam de fazer os deveres de casa e me comportar direitinho na escola - e mesmo essas eu já conseguia não cumprir direito. As alegrias eram jogar bola a tarde toda, ir para o clube com os amigos após as aulas de inglês, contar os dias para as férias e ouvir música, muita música. A minha trilha sonora da época não era lá muito variada, mas posso dizer que me sentia um privilegiado quando notava que boa parte dos meus amigos ainda ouviam músicas infantis enquanto eu já possuía alguns discos de rock. Principalmente da banda que marcou minha infância e pré-adolescência: o Guns n' Roses.

Hoje resolvi ouvir a banda novamente. Não me pergunte por quê, não saberia responder. Só posso dizer que aqueles tempos de criança, "virando rapazinho", voltaram com força total quando "Estranged" começou. São nove minutos e vinte segundos de um hard rock progressivo, melodias quebradas e intermináveis solos. Guitarras, baixo, teclados, piano e bateria seguindo caminhos tortuosos, onde a voz de Axl Rose, normalmente estridente a ponto de rasgar os tímpanos, fica boa parte em um timbre mais grave e agradável aos ouvidos, encharcando a canção de uma melancolia poucas vezes vista na carreira da banda. A letra, ligeiramente depressiva, cai como uma luva no caudaloso rio de diferentes melodias.

Imediatamente me vem à mente o quarto de hóspedes do meu antigo apartamento, onde ficavam o aparelho de som, os discos de vinil e alguns poucos CDs, uma cama sempre confortável, um armário de madeira barata embutido, com roupas que sobravam em seus locais de origem e uma pequena estante abarrotada de livros diversos, nossa dileta biblioteca. Era lá que eu passava boas horas do meu dia ouvindo as músicas e tentando acompanhar as letras no encarte dos discos, sob o sol castrador de Cachoeiro que nunca dava folga. Era lá que, junto com meus amigos e meu irmão, colocávamos os álbuns em altura máxima e fingíamos cada um ser um membro da banda - eu era o vocalista. Mal conseguíamos ouvir a própria voz naquele cubículo de portas e janelas cerradas. Imitávamos os trejeitos de cada membro do grupo, pulávamos, gritávamos, ajoelhávamos no chão. A essa atividade, demos o nome de "brincar de Guns".

Daria um pedaço de mim para poder voltar àquele tempo como espectador, para apenas observar aquelas crianças enlouquecidas pela música desde tão cedo. Hoje consegui voltar por alguns instantes àquela época enquanto "Estranged" tocava no meu iPod repetidas vezes. Voltei e revi a vontade absurda que eu tinha de aprender inglês. Revirava as gavetas do meu irmão atrás de seus livros de inglês - de alguns níveis mais elevados que o meu - e tentava aprender na marra, lendo os exercícios e tentanto resolvê-los. Revi minhas idas e voltas para a escola caminhando com preguiça debaixo do sol que não dava trégua nunca. Senti novamente o medo dos pivetes, que já rondavam a Beira Rio à procura de sandálias Kenner, tênis Nike, bonés do basquete americano (os oficiais, de sei lá quantas linhas na aba) e relógios G-Shock. Enquanto as guitarras de Slash praticamente falavam em "Estranged" eu vivia novamente os meus amores da época, a chegada confusa do sexo nas noites de festa americana e as conversas fiadas sobre possíveis (e hoje inimagináveis) façanhas que gostaríamos de realizar alguns anos à frente. Era impossível não recordar o basquete jogado sem tabela, o futebol sem gol e o videogame sem fitas, as horas intermináveis de espera nas locadoras de game à procura daquele jogo de futebol americano ou do famoso "Lakers vs Celtics", que tantos calos nos dedos rendeu.

A mistura suave do piano tocado por Axl e da guitarra destrinchada por Slash eram guiadas pelo simples conjunto bateria-baixo. A voz antes grave começava a se tornar estridente novamente. Algumas frases jogadas, versos sem tempo obrigatório apenas pontuando o instrumental, e a minha mente viajava pela cidadezinha abafada, apinhada de gente nas ruas do Centro - alguns procurando a sombra amiga das árvores das pracinhas, outros entrando nas lojas para curtir um pouco do ar condicionado antes de se aventurarem pelo asfalto novamente. E eu, estranhamente, não me sentia no meio de tudo aquilo, ainda que fosse apenas mais um garoto que passava na rua, mais um a fazer aulas de inglês, outro que comia o enroladinho com Coca-Cola no Much Caldo e jogava basquete no Jaraguá às terças e quintas. Só agora consigo perceber a quantidade de coisas que aconteciam ao meu redor e como eu estava inteiramente conectado a todas elas.

São quase dez minutos de música, todos eles inteiramente dedicados a uma volta às origens cachoeirenses. Lembranças dos amigos Brunner e Pitanguinha, do uniforme branco, vermelho e azul da escola, da piscina do Sesi e da quadrinha que mais parecia uma gaiola de loucos, das subidas e descidas no Ed. Tinah, do Rio Itapemirim que borbulhava bosta e cheirava a gente morta, das visitas à tia Marluce, das implicâncias com a Marcela e das brincadeiras com o ainda pequeno Ronalsinho, da pouca profundidade das coisas da vida. Era tudo mais fácil, menos complicado. E eu não estaria aqui agora se nada disso tivesse acontecido.



 

*Bruno Reis é publicitário por formação, escritor por paixão e teimoso por falta de opção. Revive momentos importantes sempre que escuta as músicas que marcaram sua vida.



Vinicius (broda)  -  São Paulo  -  16/09/2009 ~ 23:38
Sensacional! Emocionante... Saudosas lembranças! :-D

Roberta Calazans  -  19/09/2009 ~ 22:57
Que lindo!

Marta  -  V.Velha ES  -  20/09/2009 ~ 19:26
Se voce tem saudades,imagina a Mãe, curtindo todos os momentos perto dos seus meninos lindos, QUE SAUDADE....beijos

carol  -  21/09/2009 ~ 20:25
Que coisa linda! Emoção pura.. =) Foda!

gilberto  -  Vila Velha  -  23/09/2009 ~ 22:35
Cara, puxou fundo... Sabe qwe tem coisas ali que eu não lembrava mais... Relembrar momentos felizes é sempre bom. bjs.-

 
© Copyright Revista Paradoxo 2003~2008. Todos os direitos reservados