A arte da culinária apresenta-se frequentemente na literatura e no cinema. Para ficar em poucos e marcantes exemplos, temos Como Água Para Chocolate e sua porção generosa de
tradições e resignação; Simplesmente Martha, que enreda morte e renascimento, perfeccionismo e depressão; Chocolate, doce romance com uma medida de melancolia; Dona Flor e Seus Dois Maridos, recheado de receitas picantes; e o famoso jantar d'a Festa de Babbete.
O Livro do Sal faz parte desse gênero que fisga o leitor pelo estômago. Não pense, no entanto, que encontrará nele receitas detalhadas; a cozinha é apenas o pano de fundo para contar uma história de mágoas, rejeição e resiliência, com um toque daquela ironia típica de quem não tem outra escolha a não ser achar graça de si mesmo.
A mistura entre ficção e realidade é um dos atrativos do romance, que, aliás, teve como ponto de partida O Livro de Cozinha de Alice B. Tokla, obra de fundo biográfico sobre as muito reais Gertrude Stein e Alice B. Toklas. Em O Livro do Sal, contudo, "as Stein", bem como outros ilustres e a esfuziante Paris dos anos 30, tornam-se coadjuvantes para que um mero cozinheiro conte sua história.
O cozinheiro em questão é Thin Bin, vietnamita nascido em uma família pobre, surgida de um casamento arranjado. Thin permite que o mar o leve a outras paragens até chegar a Paris dos anos 30. Com parcos conhecimentos de francês e uma boa experiência na cozinha do Governador-Geral do Vietnã [controlado, então, pelos franceses], Thin passa por vários patrões antes de fixar-se na casa que Gretrude Stein divide com sua companheira Alice B. Toklas.
Já de início, a narrativa constroi um anticlímax feito de lembranças, interrogações e a carta de um irmão. O leitor deverá ter paciência para conhecer Bin e percorrer suas recordações, juntando as peças numa viagem que conduz à infância, volta ao presente, mostra flashs da adolescência e assim por diante. O processo é lento como aquele que produz um bom assado. Bin mostra-se pouco a pouco, falando do seu primeiro amor, da mãe, das suas peregrinações, angústias e esperanças.
Thin Bin é, de fato, um viajante que sofre da sensação de não pertencer a canto algum, ao mesmo tempo em que desenvolve a capacidade de adaptar-se até atingir a invisibilidade, misturando-se como um camaleão à paisagem que o envolve.
A prática culinária tem presença tênue no livro. Ora dá as caras no cozimento de um cordeiro quase sem tempero, ora indica como preparar uma boa omelete. A cozinha serve realmente às metáforas de Bin, que define a si e a tudo que o cerca por meio de seu ofício.
O Livro do Sal, primeira obra de Monique Truong, vietnamita como seu protagonista, é para ser degustado como uma longa refeição, em que pratos simples alternam-se com outros elaborados. Ao fim, a sensação é de que o repasto, embora não tenha sido perfeito, foi muito satisfatório. Vale a pena esperar por outros jantares, ou melhor, romances da autora.
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-trechos do livro
"Estava certo de encontrar o encontrar o ardor familiar do sal, mas precisava saber o tipo: de cozinha, suor, lágrimas ou do mar." [página 16].
"Há uma tênue linha divisória entre um cozinheiro e um assassino, e essa linha é mantida com firmeza pelos meus companheiros de ofício. Na verdade, a única diferença entre os dois é que um mata pra cozinhar e o outro cozinha para matar. A morte está nas duas vertentes." (página 87) .
"Minhas Madame e Madame me sustentam. Pagam meu salário, me dão abrigo, e eu as alimento. Essa é a natureza da nossa relação. Você pode pensar que é simples. Até substituível. As refeições matinais, os repastos da tarde, os jantares noturnos, o dia-a-dia é o que partilho com elas. Você pode pensar que isso é apenas uma sequência ininterrupta de refeições, contínua, do contrário insignificante, porém está errado [...] Essas duas, ao contrário de todos os outros a quem eu tive a infelicidade de chamar de Monsieur e Madame, estenderam a mim o direito de comer o que elas comem." (página 258-259).
"O sal é um ingrediente a ser estudado e cuidadosamente dosado, como todos os outros. O verdadeiro gosto do sal, todo o mar na ponta da língua, o ferrão da tristeza, o estalo do labor, foi perdido, segundo minha Madame, em séculos de imprudências culinárias." (página 262).
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O Livro do Sal
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por Monique Truong
José Olympio
321 págs
$42