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Primeira de muitas
A primeira desilusão amorosa a gente nunca esquece por Bruno Reis
Para tudo existe uma primeira vez na vida. Tudo mesmo. O primeiro tombo, a primeira conquista, o primeiro amor, a primeira briga, o primeiro atraso, a primeira transa. O campo das decepções amorosas também precisa ser inaugurado de alguma forma. A minha primeira decepção amorosa eu nunca vou esquecer. Tudo começou num daqueles dias infernais de verão da década de 80, quando o mínimo de roupa era o máximo que conseguíamos aguentar sobre nossas peles. A molecada que ocupava as casas de veraneio naquele janeiro de poucos ventos passava as manhãs na praia e as tardes na rua São Paulo, indo do pique-esconde às peladas no chão de pedras pontudas, do pique-pega aos jogos de vôlei com rede pendurada entre os postes, do elástico ao "frênis" - um jogo criado por nós que misturava algumas regras do tênis e do frescobol. Suar era uma constante para aqueles garotos. Mas derreter-se por uma garota ainda era de certa forma novidade. Também era novidade ver uma dessas garotas e não sentir uma imensa vontade de puxar seu cabelo para vê-la sofrer, mas sim puxar para fazê-la prestar atenção em mim por alguns segundos. O calor irradiado pelo sol se misturava às primeiras impressões que uma menina despertava em mim. Por causa dessa sensação de sufoco ao ar livre - causada até aquele momento apenas pelo sol - criei uma mania do alto dos meus 6 anos: ao sair do banho me secava pouco, o bastante para não ficar totalmente molhado, mas para poder sentir o frescor do raro vento lambendo minha pele úmida. Confesso que me achava um gênio e não entendia por que as pessoas se secavam tanto ao sair do banho. Bastava seguir minha idéia revolucionária e o mundo seria um lugar mais habitável mesmo no mais fervilhante dos lugares. Em tão pouco tempo de vida, novidade era o que não faltava pra mim. Mas eu nunca poderia adivinhar que a que viria a seguir ia me fazer corar ao menor sinal de lembrança até hoje. O fato é que resolvi contar para uma tal menininha sobre a minha idéia revolucionária pós-banho. Ela, que era o maior motivo de eu ter passado a jogar frênis na frente da minha casa, ao invés de nos fundos, como era de costume. Ela, que era a responsável por eu ter parado de lambuzar o nariz de hipoglós quando rumava para o mar segurando minha Morey Boogie Mach-77. Ela, a primeira que merecia saber que eu era um pequeno gênio incompreendido, um revolucionário na arte de viver sob o esbufante calor de quarenta e tantos graus. Ela era a escolhida. Naquela tarde abafada o sol resolveu não sair, mas não pense que era um alívio: o mormaço das três da tarde pode castigar mais do que se imagina. Resolvi, como de costume, deixar o corpo com aquela fina camada úmida após o banho, e segui em direção à casa do Olavinho, uma construção velha, branca-amarelada, que ficava em frente ao segundo quebra-molas, onde a turma se reunia para começar as brincadeiras todas as tardes. Lá estava ela, sentada no parapeito baixo da varanda, os pés balançando sem encostar no chão, o rabo-de-cavalo perfeitamente montado, e os olhos inquietos de quem não agüenta mais esperar pelo começo do pique-esconde. Ela mirava os possíveis esconderijos. Eu mirava a minha primeira paixão. Fui chegando de mansinho e me aproximei de todos, dando um oi tímido, como se a molecada toda já conhecesse a audácia do meu plano. Ela respondeu, mas sem nem ao menos olhar para mim. Achei que aquela era a minha oportunidade de fazer um contato mais próximo. Meu trunfo estava à mão, parecia-me infalível comentar sobre minha própria descoberta. Era certo: eu era inteligente e ela precisava saber disso. "Oi. Sabe o que eu faço quando saio do banho? Me seco só um pouquinho. Aí eu fico um pouco molhado e quando o vento bate em mim é bem mais fresquinho." Sim, silêncio, o mesmo que ocupava o nosso mundinho antes de eu abrir a minha boca para falar qualquer coisa. Ainda quieta ela desceu do parapeito, catou a primeira bola que quicou na sua frente e saiu correndo para o vôlei sem nem lembrar do pique-esconde que ia começar em instantes. Eu continuei exatamente no mesmo lugar pelos sessenta minutos seguintes, tentando entender o que havia dado errado e por que eu merecia ser ignorado daquela maneira. Depois daqueles minutos imóvel e sentindo um vento inútil me refrescar, percebi que não conseguiria entender patavina e me rendi ao frênis que meu irmão já iniciara, como forma de repor as energias gastas com aquela minha primeira decepção amorosa. Eu precisava me recompor do fora. Em poucos minutos, minha mente infantil já havia se desdobrado em brincadeiras e piadinhas para acobertar qualquer sentimento ruim. Apenas muito tempo depois pude perceber que naquele exato dia de calor intenso e crianças impossíveis a minha vida amorosa havia começado de verdade. *Bruno Reis é publicitário por formação, escritor por paixão e teimoso por falta de opção. Usa sempre os truques que aprendeu desde a primeira desilusão amorosa. Eles continuam servindo.
Vinicius (broda) - SAO PAULO - 16/10/2009 ~ 00:59
Carol - 19/10/2009 ~ 20:46
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