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Não em uma livraria
O faro apurado dos caçadores nunca se engana por Bruno Reis
Naquela tarde, entrou na livraria como quem chega em um clube noturno. A cabeça erguida deixava o queixo fazer um ângulo de noventa graus com o peito inflado, olhos vívidos escaneando todo o ambiente com velocidade, passos atravessadores. Reduziu a velocidade da caminhada assim que passou pela primeira banca de livros em promoção. Naquela gôndola se acha qualquer coisa por volta de R$ 9,90, qualquer coisa mesmo. E qualquer coisa, convenhamos, não servia pra ele. Queria o tipo perfeito, o topo da cadeia alimentar, a luz. Seguiu seu caminho entre vendedores solícitos, negando com alguma simpatia qualquer oferecimento de ajuda. A verdade é que eles não seriam capazes de ajudá-lo. Com plena consciência disso, passava batido até mesmo pelos insistentes. Avançou de frente para a escadaria que levava à seção de quadrinhos e deu apenas uma olhadela lá para dentro, ainda se perguntando se deveria tentar por ali. Preferiu não se ater aos lugares duvidosos, a certeza era mais potente que a possibilidade. Já de longe avistou algo que o agradou, mas preferia rodar um pouco pela livraria antes de se aproximar. Queria mostrar que sabia aonde estava. Passou lentamente pela prateleira de livros de arte. Atento aos títulos que se dependuravam por ali, passava o dedo pelas lombadas produzidas entre um livro e outro como se brincasse com um carrinho. Ali era também o seu playground, o lugar onde a garantia de diversão nunca falhava. Passou a folhear volume por volume, um de design gráfico alemão, outro americano, enorme, apenas sobre lomografia, e a fascinação genuína emanava dele como feromônio. Um sentimento quase animal tomava conta de seu cérebro nestes momentos, existia no mundo apenas aqueles livros, por bons minutos, até que algo quebrasse sua concentração e o resto das coisas voltassem a fazer sentido novamente. Neste caso, quem quebrou sua concentração foi o seu alvo, destacado desde o começo. Foi, na verdade, o barulho dos livros caindo no chão. O ruído assemelhava-se a um curto tiroteio dos filmes de faroeste, e ecoavam ainda pela livraria enquanto ela já se abaixava para consertar a bagunça. Como que movido por algo maior e sem aparente explicação, moveu-se sem nenhuma graciosidade até onde ela estava, do outro lado da loja. Passou como um raio pela bancada de auto-ajuda, de propósito, procurando gravar bem aqueles rostos que folheavam os odiosos livros para que nunca se esquecesse dessas pessoas - era prevenido, nunca se sabe quem encontraria no dia de amanhã. Passando pela parte de obras nacionais notou com engraçada satisfação que, quanto mais famosos eram os escritores, maiores seus nomes ficavam nas capas, à despeito do título do livro, que só diminuía com a fama do seu autor. Na seção infantil, divertiu-se por alguns segundos com um pequeno menino de cabelos cacheados e óculos de aros grossos que tentava juntar as letras para ler suas primeiras palavras. Teve que se segurar para não dar a ele a inevitável notícia: eu sou você amanhã. Preferiu que o garoto descobrisse sozinho, um dia. A vida ainda teria muito o que mostrar para o pequeno leitor. Seguiu direto para o seu alvo, o objetivo constante, a moça que provavelmente habitava o topo da cadeia alimentar, que portava a luz. Estava a poucos metros da pequena: olhos grandes, cabelos ligeiramente ruivos, um vestido preto que mal deixava ver seus joelhos ossudos, uma sandália corroída pelo tempo, e um livro, um único livro, aberto nas mãos: "Cem Anos de Solidão", de Gabriel Garcia Marquez. Enquanto via uma lágrima leve rolar dos olhos dela, sorriu sem medo. Era ela. Ele nunca se enganara. Não em uma livraria.
Iza - VV - 12/11/2009 ~ 14:44
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