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Calma

"e o viajar já é mais que a viagem"

por Gabriel Louback
de São Paulo

[17/11/2009]

Acho que estou ficando velho. Não só achei uma boa dica a do meu pai, como coloquei em prática. Interessante que ele está ficando mais novo. Depois de abrir uma conta no MSN e Skype, a nova coqueluche dele é conversar conosco via Gtalk. Minutos antes de sair do trabalho, disse a ele que não iria de carona, mas de metrô mesmo. Para andar um pouco e dar um tempo até chegar em casa. A idéia não era prolongar a chegada por não querer estar em casa, mas meu pai disse uma coisa interessante, sobre a ida do trabalho para casa, a transição, o trajeto e um monte de coisas que esqueci. O fato é que fez sentido e lá fui eu, tentar me desligar do trabalho aos poucos, andando com vagar.

Não costumo andar com pressa, mas diminuí, mesmo assim, o passo. No meio do primeiro quarteirão já queria andar mais rápido. A gente se acostuma a um ritmo e quando muda, não sabe direito como fazer do novo jeito. Forcei-me a dar passos mais lentos e mais curtos. Fui pensando no que havia feito no trabalho, o que tinha para fazer nos outros dias e reparei nas pessoas. Algumas estranharam ver alguém andando de forma tão devagar, em meio a tanta gente andando depressa e carros acelerando até o semáforo vermelho.

O mais difícil foi no Metrô, onde todos correm. Claro que há momentos em que estamos com pressa e precisamos correr. Mas nos acostumamos a estar sempre com pressa. A necessidade de estar nos lugares suprimiu a possibilidade de aproveitarmos as idas e voltas. Como para viver intensamente a vida precisamos estar nas melhores festas, estar com as pessoas mais legais, estar nos restaurantes mais desejados, o processo de ir de um lugar ao outro se tornou apenas um mal necessário. Um incômodo na nossa vida, que não pode ser desperdiçada com coisas banais.

Reconheço que o caos no trânsito de São Paulo [e o transporte público com tantas falhas] ajuda no processo de querermos ficar o menor tempo possível em 'tráfego'. Quem, em são consciência, curte aquela fumaceira dos caminhões e o altíssimo volume dos motores dos ônibus, motos e buzinas?

Assim como meu pai sugeriu que eu diminuísse o passo, proponho que retomemos os momentos de transição. Andarmos com mais calma para chegar em casa. Nos desligarmos aos poucos das coisas que nos preocupam e que só poderão ser resolvidas daqui 12h ou mais. Darmos 'bom dia' e 'boa tarde' aos que nos olharem assustados, e validarmos a idéia de que somos loucos, sim, mas que é assim que sobreviveremos. Pessoalmente, preciso lembrar que fazemos sentido também nas passagens e não apenas nos destinos.

*Gabriel Louback é jornalista e dorme no sacolejar do metrô.

foto: oscar segovia



renatinha.  -  sampa  -  17/11/2009 ~ 18:52
Me amarro em andar pela Paulista... Tem dia que vale a pena ir andando até chegar na Brigadeiro... e só então pegar o metrô. A Paulista é muuuuito interessante... Já o metrô... O metrô eu não consigo. Quanto mais rápido eu saio de lá, melhor... Lógico que a gente sempre acaba reparando naquelas pessoas bizarras e fedorentas que fazer questão de grudar bem em VOCÊ dentro do vagão... Mas no mais, preferiria não estar lá ;)

Renato Augusto  -  SP  -  17/11/2009 ~ 18:54
É isso mesmo Gabriel... estamos sendo de certa forma sugados em uma cultura totalmente imediatista, sem notar que aos poucos perdemos a doçura do pequeno. Belo texto. Abs.

Rebiscoito  -  Sumpaulo  -  17/11/2009 ~ 21:44
Que demais esse texto! Que gostoso de ler. Você fez algo que eu dou muito valor e costumo fazer sempre. São Paulo é uma cidade que transpira pressa, tempo, correria...Respira, transpira, surpira..Tudo! E é raro mesmo ver pessoas que tem a sensibilidade [seria essa a palavra certa?] pra pensar em andar mais devagar, observar, sentir...Faço bastante isso depois do trabalho. O fato de estarmos no horário de verão me deixa super bem humorada e com vontade de ficar na rua. Olho as pessoas, os carros passando...Olho meu ônibus passando lá na frente e penso: oh fuck! mas ok, logo vem outro. Pra mim, o mais legal de tudo isso são as pessoas. Tenho essa tara por pessoas, por desconhecidos..Fico observando e pensando em mim coisas...Também não sou dessas que, quando está atrasada, sai atropelando todo mundo. Atrasou atrasou, sabe? Não que eu vá enrolar mais, mas com ctz vou manter um ritmo no mínimo educado com as outras pessoas. E sempre pedindo desculpas numa mini esbarrada e tudo mais. Um beijao beibi, adorei esse texto!

Zan  -  Florianópolis  -  18/11/2009 ~ 18:38
Também curto muito andar e observar, deixar o pensamento voar, fazer caminhos novos, descobrindo assim coisas novas, mas adoro mesmo e ver casas e seus jardins que são tão poucos hoje em dia, isso me traz um bem estar muito grande...

fil  -  sp  -  19/11/2009 ~ 17:42
vou andar até em casa hoje. bem devagar!

 
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