Naquele dia o sol entrava e saía de trás das nuvens sem descanso. Sentado em um banquinho desconfortável e sentindo o calor penetrar minhas entranhas sem o menor pudor, eu tentava me desviar dos ocasionais raios que entravam pela janela. Era como um passatempo, uma forma de não me deixar pensar demais em tudo aquilo. A bem da verdade, era uma maneira de me proteger de mim mesmo e dos meus devaneios. Mas a pergunta certa seria, será que eu quero me proteger?
Eu não sabia. Certeza era o que menos poderia chamar de meu àquela altura. Sem pensar no sol, a única coisa que sobrava na minha cabeça era ela. Não adiantava lutar contra um sentimento tão absoluto. Esquadrinhava todo o seu rosto em questão de segundos, cada dobra da sobrancelha, cada sulco das bochechas, cada marca das acnes juvenis. Era fácil prever ali um sorriso convidativo, misterioso, ou ainda uma gargalhada desamparada, sem amarras.
Abria e fechava os olhos observando bem à minha frente aqueles lindos cabelos loiros, que se derretiam pela testa fazendo uma leve volta ao se aproximarem das orelhas. Imaginava que tipo de olhos combinariam com aquele rosto angelical. Verdes? Azuis? Castanhos? Acreditava mais em um azul acinzentado, de pouco brilho, que talvez combinasse mais com as olheiras suaves que ela guardava em bolsas fofas embaixo das pálpebras encerradas. Arredondados, acinzentados, tristes, desesperançosos. Lindos.
Pelo que conseguia observar, tratava-se de uma garota alta para os padrões. Estatura e porte de modelo, pensei comigo, mas a personalidade avessa a tais condições. Em meus devaneios me imaginava encontrando-a em uma biblioteca, e não em uma boate. Ao pensar em música, nos colocava em situações como em um show do Portishead ou do Antony and the Johnsons, ou em casa, sob um frio calamitoso, envoltos em edredons e pernas e braços e nosso próprio calor ao som de Radiohead.
Não sabia nada sobre ela, mas fazia tudo parecer óbvio, como se a conhecesse desde criança, como se tivéssemos crescido juntos, nos conhecendo a cada dia, descobrindo a vida e suas artimanhas a cada buraco em que caímos de mãos dadas. No meio dos devaneios aquele cheiro de flores tomava minhas narinas e meu cérebro de assalto, sem a menor complacência. E eu me pegava pensando nela em um campo enorme, ao sabor de ventos suaves, com uma daquelas flores presa em sua orelha, emoldurada pelos cabelos e fazendo uma bela combinação com o sorriso misterioso que imaginara antes.
Empunhava o meu próprio queixo para suportar a dor de cabeça e o cansaço daquelas tantas horas sentado no mesmo lugar, fugindo do sol e sentindo as pernas sucumbirem à dormência, quando me pediram licença. Sabia que era hora de me despedir do meu amor. Levantei-me com dificuldade, as dores me tomavam muito mais que o coração partido ao ver aquela paixão ir embora poucos momentos depois de conhecê-la.
Um homem carrancudo e vestido de preto, sem marca alguma de felicidade no rosto, deu uma puxada violenta na tampa. A família dela, dando um passo à frente, me olhou como se me repreendesse. Alguém cochichou um pouco alto demais a pergunta "quem é esse daí?", mas ninguém sabia responder. Nem eu mesmo sei porque entrei naquela sala aquela hora, estava caminhando para casa e de repente me vi lá dentro. Agora, prefiro acreditar que foi a mão do destino quem me indicou o caminho para aquele amor tardio.
Com a tampa do caixão fechada, não a vi mais. Alguns homens se aproximaram e agarraram as alças mostrando força e pesar em suas expressões. Hora do enterro. Meu coração se partiu em um milhão de pedaços irrecuperáveis. Levantaram o corpo fechado naquela massa de madeira ao som de um canto religioso qualquer, capaz de arrancar de mim a primeira lágrima da tarde em que me apaixonei por uma menina morta.
*Bruno Reis é publicitário por formação, escritor por paixão e teimoso por falta de opção. Sabe que para amar de verdade não há uma hora certa. Muito menos uma hora errada.