Estou apagando cigarros no meu braço. A sensação é esquisita, mas eu gosto. Uma dor que começa arrepiando o corpo todo, depois focaliza no ponto onde tudo virou cinzas. É a minha vida, também, virando cinzas. Nada parece fazer sentido. A brasa que morre na minha pele é capaz de deixar marcas mais respeitosas do que os acontecimentos do meu dia-a-dia. Olho lá para fora e tudo que eu vejo é um monte de nuvens agarradas umas nas outras. Sorrio. Gosto do tempo assim, cinza. Faz parte da minha vida, combina com meus gostos, com meus problemas, com meus medos.
Na TV, uma mulher tira a roupa. Em cima de um barco, de maneira surpreendentemente idiota, ela se toca como se isso fosse me tocar. Ignoro. Quero sentir apenas a queimação suave que me dilareca os pelos do braço. Este já é o segundo cigarro que desisto de fumar. Veja você, eu, desistindo de fumar um cigarro já aceso, dando pouca ou nenhuma importância para uma mulher tirando a roupa na minha frente. Veja você, me veja, me iluda, me diga que eu estou bem, que tudo vai dar certo, que não há nada a temer. Já não consigo parar pra pensar, sempre parece ridículo da minha parte ter esperança de uma melhora.
Um avião passa pelo céu no meio das nuvens. Com seus faróis brilhantes, ele vem construindo um túnel no meio da fumaça. Começo a imaginar como seria se ele caísse aqui na vizinhança, em cima do prédio ao lado do meu. Imagino o som de suas turbinas aumentando de maneira absurda, e eu aqui, distraído, percebendo lentamente que alguma coisa está errada. De repente, um clarão enorme tomaria conta da noite. Seria o avião, impávido, cortando o ar com precisão cirúrgica e se dirigindo ao destino inevitável. Uma explosão, claro, seria o próximo passo. Natural, assustadoramente natural.
Quando penso nas chamas causadas pelo avião torrando o prédio, percebo que acabei de enfiar mais um cigarro aceso bem próximo ao meu pulso. Dói, mas é ao mesmo tempo libertador sentir uma dor maior do que a que trago comigo. Um alívio estranho toma conta de mim. Sinto vontade de enfiar mais um cigarro aceso na minha pele, mas o maço avermelhado ao lado do pé da mesa está vazio. Olho para os lados enquanto a ardência do cigarro apagado na minha pele vai se esvaindo. Dou um soco no braço do sofá, puto da vida. Meu cigarro acabou. Terminou também a minha chance de esquecer, nem que seja por um momento, que a dor psicológica é mais potente que a dor física. Não vejo outra alternativa, só me resta ir embora para nunca mais.
*Bruno Reis é publicitário por formação, escritor por paixão e teimoso por falta de opção. Luta para conseguir segurar as dores do dia a dia sem precisar apagar cigarros na própria pele.