A mesa nem é assim tão grande, mas parece que estamos a quilômetros de distância. De um lado estou eu, o pensamento a viajar em velocidade incrível, imaginando o que ela está pensando agora, quais são seus planos pra hoje, e, claro, se eu fui incluído em algum deles. Do outro lado está ela, linda, esses cabelos negros, compridos, os olhos pretos como carvão a esquadrinhar toda a mesa, todos os presentes, a blusa branca deixando o corpo bronzeado ainda mais vistoso, as mãos inquietas que pegam copo, soltam copo, pegam de novo, levam até a boca, derramam líquido, voltam à mesa e depois cobrem parcialmente o rosto, como se escondesse ali também seus pensamentos. Nós, que ontem estávamos tão próximos, tão entrosados, hoje mal sabemos quem somos.
Em questão de minutos, todos vão se levantar desta mesa, pagar com o cartão a parte que lhes cabe da conta e arrumar as coisas para o próximo destino. A turma inteira sabe disso. Ela sabe disso, eu também. Meu pensamento não está mais aqui, está lá, no futuro, uma hora adiantado. Já faço mentalmente nosso caminho àquele encontro que, de tão manjado e sabido por todos, anda inevitável. Sem fazer esforço já a vejo se aproximar de mim com um sorriso iluminado, rasgando o rosto de fora a fora e particamente confessando esse crime inafiançável de me querer a qualquer custo - mas só daqui a uma hora. A espera que me consome nem deve arder nela, menina calejada que é, acostumada a cozinhar em banho-maria os homens que se aproximam. Mas a mim arde, nunca sei se o que eu imagino vai eventualmente se transformar em realidade.
Prefiro esperar e, sem o menor constrangimento, reparar nas pernas longelíneas que sustentam aquela bela forma feminina. Acompanho enquanto ela se levanta, brinca com um amigo ao lado, mostra de novo aquele sorriso matador que se esconde entre os lábios finos e desenhados com batom. Ela passa a mão no copo, sorve o líquido com a mesma sensualidade que uma mulher recebe um beijo no pescoço. Vira-se contra mim e deixa à mostra as costas nuas, como que desenhadas a mão por um cuidadoso ilustrador de heroínas em quadrinhos. A bunda linda e arredondada completa o desenho daquela deusa grega com os encantos de um ser de outro mundo. Analiso tudo, sim, mas já pensando em uma forma de fazer que esses minutos que nos separam corram na velocidade da luz. Enquanto isso, aguento com a paciência de um Jó sedento a completa indiferença que ela demonstra, enfio a cara no meio das mãos e só penso no que pode vir a seguir.
Todo fim de semana é a mesma coisa. Ela finge que não quer, eu finjo que nem estou vendo, as pessoas nos cercam, os amigos fazem piada e as horas passam, passam, até que a gente se encontra em algum lugar, fazendo alguma coisa que não deveria estar fazendo àquela hora, e transformamos todos os pensamentos anteriores em realidade. Ela agora está de volta à mesa e meus amigos me olham, curiosos pela minha reação. O sorriso dela surge novamente lá do outro lado e quase ofusca meus olhos. Meus amigos percebem. Resolvo me voltar para ela e vejo que está me olhando, os poucos segundos em que nos encaramos são capazes de fritar áreas do cérebro que nem conhecíamos. Há ali uma tensão sólida, latente, tão firme quanto a mesa que nos separa. Os minutos agora parecem meros segundos, a vida se relega ao que o pensamento, só, não consegue segurar. Já conto nos dedos o tempo que falta. Quero sentir aquele cheiro de novo, quero segurar seus braços e trazê-la pra mim mais uma vez.
Eu nunca poderia adivinhar que justamente aquela noite seria a primeira de muitas em que não voltaria a tê-la comigo novamente. Eu não sabia que aquela mesa, que imaginava nem ser assim tão grande, guardava mesmo quilômetros e quilômetros de distância entre nós dois.
*Bruno Reis é publicitário por formação, escritor por paixão e teimoso por falta de opção. Sabe suportar os quilômetros de distância sem reclamar.