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Eu não sou só

Você eu não sei, mas eu não sou uma ilha

por Patrícia 'Ticcia' Antoniete
de Porto Alegre [RS]

[10/12/2009]

O meu analista que me perdoe, mas as pessoas não nascem e morrem sozinhas. Não. Eu, pelo menos, não. Se ele nasceu e vai morrer só, eu sinto muitíssimo, porque deve ser muito - muito - ruim mesmo. Mas não é o meu caso.

Não faz muito tempo eu me dei conta de que os perrengues, sofrimentos, apertos, decepções, tristezas, chateações, depressões, dores, sinucas de bico, zingrongas, atucanações, grandes merdas, total eclipses of the hearts também são viver. Nada daquela lenga-lenga de autoajudismo de que é no sofrimento que a gente cresce, que tudo é aprendizado e tals. É nesses momentos também que a gente se testa e se prova e se conhece, que experimenta a própria fragilidade e vulnerabilidade e se permite fazer, dizer, ser, admitir o que se é, ouvir e sentir coisas que nas condições normais de temperatura, pressão e felicidade jamais experimentaríamos, e é aí que a cacaca toda faz sentido quando acontece e serve, não para alguma, mas para muita coisa (e coisa boa, diga-se).

 Mas vou além. Vou aos outros, vou àqueles que me permitem, felizmente, não ser sozinha, não estar sozinha nem nestes momentos de provação, angústia e sofrimento (ohhhh), nem nos de felicidade e paz. Eu não sei exatamente se são eles que garantem que eu sobrevivo, ou se eu garanto a minha sobrevivência  porque sei que eles estão por perto. O que é certo é que eu sei que eles estão comigo e isso faz a diferença. Nas partes ruins, porque eu sei que posso dividir (e compreender melhor), nem que seja num simples compartilhar alternado de expressões de baixo calão. Nos momentos bons, porque um momento bom ganha outra dimensão quando é dividido, testemunhado, relatado.

Eles estão comigo. Meus amigos, meus amores, meus pais, meus avós, meus irmãos. Estão sempre comigo. Nas minhas lembranças, nas minhas referências, nos meus gostos, nos meus gestos, no meu entendimento das coisas, em tudo do meu dia, em tudo dos meus sonhos. E eu sei, eu sinto que por isso não estou só.

Soou para vocês algo parecido com fé? É mesmo isso. Na minha agnóstica dificuldade de crer no Grande Improvável (e como diria Dawkins, sem evidências suficientes), creio tranquilamente nisso: não estou só e isso ajuda muito.

*Patricia Antoniete Ferreira é uma advogada portoalegrense que sabe que o analista quis dizer com "todos nascem e morrem sós", mas precisava de uma boa frase para começar a coluna.



Carlos  -  Porto Alegre  -  11/12/2009 ~ 22:54
Estou e estarei SEMPRE contigo. E conto SEMPRE contigo. Bj. Pai

Isa Ramos  -  Porto Feliz  -  31/03/2010 ~ 11:26
Não estamos sos! Isso é um fato! Apenas quem deseja estar so fica nesta condição. Texto maravilhoso!

 
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