_participe!
 

cinema  |  comportamento  |  geral  |  literatura  | moda  |   música  |  tv viagem  || blog do editor  |  colunas  |  expediente

 
Dúvida entre amores

O que é pior, o amor que acaba ou o o amor que nem começa?

por Bruno Reis
de Vila Velha - ES

[23/12/2009]

O que é pior, o amor que acaba ou o o amor que nem começa?

Difícil dizer. O amor que acaba surge de algum motivo aparentemente tolo e se desenvolve sobre terrenos pouco prováveis. Vai além do imaginado, sempre. Ninguém aposta de cara no amor. Toda vez colocamos algum empecilho aqui ou ali, duvidamos da força do sentimento, fingimos que não é conosco quando na verdade temos plena consciência de que, naquele momento, não poderia ser com mais ninguém. Vivemos à caça de um motivo para que isso não aconteça, mas nos rendemos quando fica na cara que não há escolha - aliás, não somos nós que escolhemos.

Depois que surge, o amor se fortalece. Começa tomando Biotônico Fontoura, se tornando mais potente com o carinho do dia a dia. Alimentado pelos pequenos gestos, ele cresce sem parar, esticando seus tentáculos portentosos até que consiga agarrar os dois corações incautos, juntá-los em uma grande bacia lotada de paixão e afogá-los animadamente. Lá de baixo farão surgir bolhinhas, aquelas borbulhas de amor cantadas nas músicas mais bregas, que virão à tona como declarações de um sentimento que não tem freio, desembestado que é. Imenso, ele lota todos os locais, revira sua vida e faz com que toda a sua rotina ganhe novos ares depois de seu surgimento. Queira ou não, você se torna um escravo do amor.

A essa altura, já é difícil conte-lo dentro de uma caixa fechada, ao lado dos badulaques de outros carnavais. O amor agora ganhou identidade, tem nome e sobrenome, endereço, caixa postal e conta no orkut. Tem vontade própria, o amor. Tem sonhos, ideais, medos e desejos. É profundo, mas tenta se mostrar raso o bastante para não se comprometer tanto. É fiel, mas finge estar se importando com tudo que ocorre ao seu redor, só pra deixar uma dúvida marota no outro. O amor é safo, é engenhoso, mas é também ciumento, pão-duro, inseguro. O amor, antes tão forte e confiável, assume de repente uma faceta desesperada, desolada com a transformação das coisas. As peças, que viviam encaixadas com sabedoria, agora se separam e tentam ficar o mais longe possível uma da outra. Alguma coisa está acontecendo com o amor, e ninguém sabe explicar. Ou prefere não querer saber.

Aí o amor lentamente se acaba. Não há distância que cure as feridas abertas. Aquilo que não existia, mas que os dois lados fizeram surgir e alimentaram e cuidaram com todo o carinho, de uma hora pra outra se torna inviável, invisível, insolúvel. A imensa mansão construída pelos dois começa a ruir. Não era mesmo para ser pra sempre, até porque nunca é, por mais que se queira incutir essa ideia nas pessoas. Tudo tem data de expiração, mas deve mesmo ser vivido como se fosse o último, como se fosse eterno. É assim, essa vida de quem ama.

Já o amor que nem começa, esse não é preciso se perder em explicações. Você conhece uma pessoa sensacional, se aproxima dela com cuidado, sem exagerar na dose. Os dias passam em tons coloridos. Nada parece conseguir abalar aquela fase inicial. Mensagens cifradas se confundem a pequenas e charmosas confissões. Há um cheiro de urgência no ar, mas os dois lados preferem suprimir isso para não dar na pinta. Disfarçadamente, ambos fazem pequenos planos para um futuro recente - tão próximos, tão distantes. Tudo é sorriso, desde o recado escondido no MSN ao grito sufocado na noite escura. E, não mais que de repente, um dos lados corta o fio comunicador. Não mais que de repente, tudo parece errado, proibido, atravessado. Uma onda variante acerta em cheio aquele pequeno castelo de areia que os dois erguiam com terra caudalosa. Fim de algo que nem começou. Parece estranho? E é.

Posto os termos, pergunto o que é pior: o amor que acaba ou o amor que nem começa? Nenhum dos dois são lá muito louváveis, mas há quem prefira ter lembranças doces do que apenas sonhos pela metade.


 

*Bruno Reis é publicitário por formação, escritor por paixão e teimoso por falta de opção. Canta o refrão "you don't know what love is/you just do as you're told" para si mesmo, todas as noites, antes de dormir.



val  -  sp  -  23/12/2009 ~ 12:07
sofrer pelo que passou ou pelo que nunca rolou? pra mim, pior é nunca amar.

Giovana Duarte  -  Vitória-ES  -  23/12/2009 ~ 15:38
Tinha tempo que não vinha aqui! E hoje recebi seu tweet sobre a coluna, e vim ler... caramba, que texto. Sabe o que eu acho que é pior além do amor que nem começa? Se deixar levar por pré-julgamentos e engolir palavras que deveriam ser ditas, e que talvez, mudariam destinos. Parabéns pelo texto! Foda, como sempre!

Carol  -  05/01/2010 ~ 22:41
Tem certeza que vc não sabe o que é o amor? Como é que pode escrever tão bem sobre algo que não sabe o que é?? =)

 
© Copyright Revista Paradoxo 2003~2008. Todos os direitos reservados